"Também lá, em redor desse asilo onde as vidas
se apagavam, a noite era como uma treva melancólica. Tão perto
da morte, a minha mãe deve ter-se sentido libertada e pronta a tudo
reviver. Ninguém, ninguém tinha o direito de chorar sobre ela.
Também eu me sinto pronto a tudo reviver. Como se esta grande
cólera me tivesse limpo do mal, esvaziado da esperança, diante
desta noite carregada de sinais e de estrelas, eu abria-me pela
primeira vez à terna indiferença do mundo. Por o sentir tão parecido
comigo, tão fraternal, senti que fora feliz e que ainda o era. Para que
tudo ficasse consumado, para que me sentisse menos só, faltava-me
desejar que houvesse muito público no dia da minha execução e que
os espectadores me recebessem com gritos de ódio."
Albert Camus, "O Estrangeiro"
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