Guiguiu nasceu no Monte Azul, um entre as centenas de morros que existem na cidade de Salvador. Sua infância se passou na década de noventa e, apesar de todas as adversidades econômicas que ocorriam em sua família, pode se dizer que foi uma criança feliz. Brincou de “fura-pé”, jogou gude, empinou muita “arraia” e deu muita dor de cabeça à sua avó, Dona Xôxa.
Acima eu tinha falado família, mas acho que é necessário fazer algumas correções ou adaptações à este conceito. Entendemos por família o conjunto de indivíduos formado por pais mães, filhos, tios, etc. A única pessoa no mundo que Guiguiu tinha, ou melhor, Gustavo Santos da Silva, como estava na sua certidão de nascimento, era Dona Xôxa. No registro de nascimento constava o nome da mãe. Mas Guiguiu não lembrava dela. Quando o menino tinha dois meses, Nina (era assim que chamavam a sua mãe) foi embora com um taxista e nunca mais voltou. Algumas amigas diziam que a filha de Dona Xôxa fora para a Espanha trabalhar, mas voltaria um dia para buscar o filho. Guiguiu acreditou nisso até os doze anos, quando a rua lhe impôs uma prematura maturidade. Muitas vezes o garoto perguntava à avó sobre a identidade e o paradeiro do pai. A anciã desconversava. Dizia que não gostava nem de lembrar desta história para não se aborrecer.
Guiguiu crescia “solto”, como se diz por estas bandas de cá. Acordava cedo, tomava café, pegava a mochila e saía. Dava meio dia e nada do menino voltar da escola. Dona Xôxa ainda ficava apreensiva no início. Preparava o chinelo e falava em voz alta:
- Hoje eu mato este menino de pancada! Ah, se mato!
Dava cinco... seis... sete... e, somente às oito horas da noite Guiguiu chegava com a cara mais limpa do mundo. A avó explodia de alegria por dentro, mas tentava conter-se para não dar “ozadia” ao diabinho:
- Tava aonde seu miserável?! Que me matar, é? Já não basta a “outra” ( a outra era a mãe dele) que fez o que fez ?
O menino baixava a cabeça e fazia uma cara capaz de suscitar consternação no mais duro dos corações. Era de dar dó até nos piores carrascos. Xôxa titubeava, começava a chorar e abraçava a criança pensando:
- Meu “bichinho” já sofreu tanto coitado. Menino homem é assim mesmo. Não vou judiar ainda mais da criança.
Cada fugida que Guiguiu dava era acompanhada de uma nova cena quando chegava em casa. Convencia a avó de tal forma através de suas caras, bocas e olhares, que causaria espanto e admiração nos pós-graduados em artes cênicas. Era um talento a ser estudado.
Criança cresce. Vira rapaz e depois homem. Aos treze anos, Guiguiu conhecia cada centímetro da cidade de Salvador. Não tinha limites. A rua era para ele o que a selva era para Tarzan. A avó, na medida do possível, tentava agradar o garoto pra que este não fosse seduzido pelos “apelos do mundo”. Tarde demais. Fazia tempo que Guiguiu não era mais menino. Andava com gente sabida e sabido também ficou. Quem quisesse que prendesse suas “cabritas”, do contrário corria o risco de ver suas filhas perderem a inocência nas mãos desse perigoso e impiedoso lobo. Até as meninas maiores não resistiam e se entregavam às suas peripécias. Como dizem os mais velhos: “ o tal do Guiguiu era muito adiantado”.
Já rapazinho e conhecedor dos prazeres da vida decidiu se entregar ao mundo. Este último, por sua vez, o recebeu de braços abertos. Só gostava de roupa e tênis de marca. Mas cadê dinheiro? Não tinha. Um real ou dois Dona Xôxa até conseguia para o menino jogar fliperama. Cem, cento e cinqüenta para comprar uma bermuda da moda? Fora de cogitação, por mais amor e boa vontade que a avó tivesse. Guiguiu queria satisfazer “suas necessidades”. Não pensou duas vezes e procurou uns “conhecidos” que sabiam “se virar” nas situações mais adversas possíveis.
O garoto saiu do encontro com a solução dos seus problemas nas mãos. Ou melhor, na cintura. Porém, nada no mundo real é de graça. Teria que cometer alguns assaltos para pagar pelo “pau-de-fogo”. Mercadinho, farmácia, lotérica, armarinho, padaria... Foi uma verdadeira bagaceira. Em um só dia, o menino fez tanto estrago que a polícia pensou que se tratava de uma quadrilha especializada nessa modalidade de crime. O dinheiro que arrecadou dava para comprar uns dois fuzis. À noite foi pagar a sua dívida.
- Já? Disse, surpreso, um dos “amigos” de Guiguiu.
O garoto não falou nada. Deu o dinheiro e foi embora. Já se sentia o verdadeiro “miseravão”.
No dia seguinte foi ao shopping gastar a grana. O dono da loja já sabia o perfil dos seus clientes. Tem uma marca específica de bermudas e óculos que os caras “bicho solto” gostam. Nem pediu identidade ou endereço na hora do pagamento. Gostava de vender para esses meninos, pois não pediam nota fiscal. Sendo assim sobrava um troco a mais em caixa no final do mês.
Quando voltou para casa, Dona Xôxa falou para ele que dois colegas tiveram lá procurando-o. Guiguiu já sabia de que se tratava. Foi lá na bocada ter com os “parceiros”.
- Qual foi a de mesmo de você irem lá em casa? – perguntou Guiguiu.
- Pivete, vou falar logo o “português correto” pra você entender direitinho.Ce tem talento pra coisa rapaz! Você agora vai ter que trabalhar pra gente. A idéia é essa!
- E se eu não quiser?
- Não tem negócio de não quiser não! Se não quiser, vai “rodar”!
Guiuguiu não gostou muito dessa idéia de roubar para ele e para os outros também. Mas aceitou enquanto pensava no que ia fazer com os seus “sócios”.
Não durou uma semana a sociedade. Os negócios iam bem. Teve um assalto dele que passou até na televisão. O problema é que ele não estava nada satisfeito com a sociedade. Marcou uma reunião supostamente para entregar um dinheiro e matou todos dois através da famosa “covardia”.
Sua fama aumentou. Agora, além de ladrão era assassino. Tomou gosto pelo gatilho. Quem não o respeitava, o temia. As menininhas sentiram ainda mais tesão em ser mulher de ladrão. Mas não era qualquer ladrãozinho fuleiro não. Era marginal perigoso igual a Lampião.
Dona Xôxa não queria acreditar que seu netinho era aquilo que as pessoas comentavam. Como mulher traída, secretamente sabia, mas não queria ver. Não teve jeito. Um certo dia entrou um homem em sua porta. A luz do fim da tarde já débil, bem como as suas vistas castigadas pelo tempo a impediram de identificar o estranho:
- Quem está aí?
- Sou eu Minha Vó!
Só naquele dia se deu conta de que Guiguiu crescera. Tinha barba e voz grossa. A expressão descarada de fujão não existia mais. Seu olhar era grave e decidido. Dona Xôxa sentiu que seria abandonada brevemente. As asas do menino cresceram demais. Lembrou da mãe dele. Conhecia muito bem aquele momento decisivo. Não chorou na frente dele. Na porta, já se despedindo, disse somente:
- Deus te abençoe e te guarde.
Guiguiu foi embora em silêncio. Não precisam de palavras. Haviam dito tudo um para o outro.
No intervalo entre duas novelas, uma semana depois, no jornal das sete horas, Dona Xôxa ouviu a noticia mais triste de sua vida, porém já esperada. A repórter anunciou o fato com a mesma naturalidade de todos os dias. Era uma notícia comum, mas toda vez que era dada trazia uma dor particular para uma mãe, uma avó, uma mulher ou um irmão:
“- Um assaltante morreu hoje à tarde em troca de tiros com à polícia. Gustavo Santos da Silva (aparece a foto da identidade no vídeo) foi surpreendido por uma guarnição da polícia militar quando se preparava para assaltar uma farmácia no bairro da Pituba. Os policiais foram recebidos à bala e revidou. O assaltante foi alvejado com dois tiros e morreu no local”.
Não foi a primeira e nem a última vez que vamos ouvir essa notícia. É lugar comum. Um ciclo que se repete. Provavelmente muitos outros meninos do Monte Azul atuarão no mesmo papel que Guiguiu. Se você, leitor, chegou até aqui é porque a história foi contada desde o início. Normalmente a maioria das pessoas só têm acesso ao ponto final que é narrado todos os dias no jornal das sete.
quinta-feira, 10 de julho de 2008
segunda-feira, 9 de junho de 2008
MINHA MORTE.
Trabalho próximo a um cemitério. Não coincidentemente há várias funerárias próximas dele. Deve ser por causa da antiga lei da oferta e da procura. Se eu quero um recipiente para colocar alguém que está morto penso logo em um lugar perto do cemitério. Mas não é sobre isso que quero falar.
Antigamente eu evitava olhar para dentro das funerárias. Tinha um certo medo de imaginar algum ente querido dentro daquelas caixas horripilantes. Não sei por quê esse temor. É uma possibilidade. O pior é que é uma possibilidade que, inexoravelmente, se realizará. Hoje não tenho tanto medo. Me convenço de que não sentirei nada quando minha alma não habitar mais esse corpo. Só me dá um pouco de agonia pensar que ela pode demorar muito de sair. Nesse caso sentirei os primeiros vermes comendo a minha carne. E o pior de tudo, temo estar consciente naquele lugar escuro e apertado que deve ser um caixão. E se me der uma coceirinha embaixo do braço enquanto um bichinho, daqueles que eu tenho tanto nojo quando vejo no lixo, estiver penetrando o meu corpo com a sua boca quase invisível? Será um desespero só. Ainda bem que esta última hipótese é uma possibilidade remota.
Também penso na Morte. Não no ato de morrer, mas na entidade. Um leito de hospital ou chão de uma estrada. Eu lá deitado sentido as forças se esvaírem enquanto avisto um ser com aquele tradicional manto preto com capuz segurando uma foice. Na verdade acho essa imagem da morte meio cafona. Uma entidade tão peculiar deveria estar com um figurino mais sofisticado. Acho aquela foice o “Ó do Borogodó”, como costuma dizer um amigo meu. Independentemente da roupa, o fato é que é uma visita muito inconveniente que traz uma intimação nefasta: “ Acabou o seu tempo. Vim te buscar”. Ao receber essa mensagem talvez me fizesse de desentendido:
-Não lhe conheço.”
- Mas sabe quem sou. Vamos!
Não há outra saída. Só resta lamentar aquilo que se deixou de fazer. O tempo é tão caro quando é curto. Mas quando sabemos que o temos de sobra normalmente não damos muita bola para ele. A resposta dele é o silêncio. Mudo, parece dizer: “Me aguarde”. Tão banalizado. Tão mal aproveitado. Será que é preciso a morte se anunciar para lembrarmos dele?
Meu primeiro encontro com a morte se deu aos onze anos. Até ali nunca havia pensado mais seriamente nela. Eu estudava na Escola Alegria do Povo, em Barra de Caravelas, no extremo sul da Bahia. Ao lado da escola ficavam a igreja e o cemitério. Ambos bem pequenos. Existia uma estranha diversão entre os garotos da minha idade no local. Subiam no muro para ver “Arroz Doce”, o coveiro do povoado, fazer o seu desditoso ofício. Até aquele dia eu não sabia que a mesma cova era reutilizada várias vezes. Quando fui convidado a assistir clandestinamente o sinistro acontecimento pensei que ia ver um homem retirando areia de um buraco. Tive um choque imenso quando apareceram os primeiros ossos. Era um fêmur. Estava enegrecido. Arroz Doce não se incomodou. Pegou uma picareta e puxou com uma espantosa naturalidade. Parecia até que ia plantar alguma coisa naquele solo. A pior parte ainda estava por vir. O crânio foi o que mais me impressionou. Entendi porque a caveira é o símbolo da morte. Tentei imaginar um rosto naquele lugar. Me vi. Vi o que restará de mim um dia. Vi o destino que o tempo me reserva. Aliás, reserva a todo nós. Ao bom e ao mau. Ao humilde e ao vaidoso. Ao rei e ao súdito. Aí está uma coisa que sobre a qual se pode afirmar sem receio: a morte é para todos, portanto, é democrática.
Passei o resto do dia e mais alguns subseqüentes com a imagem daquela caveira me assombrando. Quando eu pensava que já tinha esquecido, ela fazia questão de reaparecer justamente na hora em que eu ia dormir.
Quando cheguei em casa, brinquei com meu irmão como se fosse a última vez. Nem fiquei chateado quando minha madrasta reclamou pela centésima vez por eu ter deixado meu tênis no meio da sala. Também dei um abraço bem apertado em meu pai quando ele chegou do trabalho. Naquele dia me dei conta de que essa pequenas coisas precisam ser aproveitadas. Vai chegar um tempo em que não poderemos mais repeti-las.
Por enquanto não quero pensar muito em minha morte. Inevitavelmente o faço as vezes, quando essas incômodas funerárias atravessam o meu caminho. Ou melhor, elas estão no mesmo lugar. Eu é que passo na frente delas.
Aprendi que não se deve temer o inevitável. O tempo que nos arrasta certamente desembocará nesse mar de mistério. Então só me resta aproveitar a viagem. Não sei se na próxima curva do rio a foz estará me esperando.
Rafael Dias.
Antigamente eu evitava olhar para dentro das funerárias. Tinha um certo medo de imaginar algum ente querido dentro daquelas caixas horripilantes. Não sei por quê esse temor. É uma possibilidade. O pior é que é uma possibilidade que, inexoravelmente, se realizará. Hoje não tenho tanto medo. Me convenço de que não sentirei nada quando minha alma não habitar mais esse corpo. Só me dá um pouco de agonia pensar que ela pode demorar muito de sair. Nesse caso sentirei os primeiros vermes comendo a minha carne. E o pior de tudo, temo estar consciente naquele lugar escuro e apertado que deve ser um caixão. E se me der uma coceirinha embaixo do braço enquanto um bichinho, daqueles que eu tenho tanto nojo quando vejo no lixo, estiver penetrando o meu corpo com a sua boca quase invisível? Será um desespero só. Ainda bem que esta última hipótese é uma possibilidade remota.
Também penso na Morte. Não no ato de morrer, mas na entidade. Um leito de hospital ou chão de uma estrada. Eu lá deitado sentido as forças se esvaírem enquanto avisto um ser com aquele tradicional manto preto com capuz segurando uma foice. Na verdade acho essa imagem da morte meio cafona. Uma entidade tão peculiar deveria estar com um figurino mais sofisticado. Acho aquela foice o “Ó do Borogodó”, como costuma dizer um amigo meu. Independentemente da roupa, o fato é que é uma visita muito inconveniente que traz uma intimação nefasta: “ Acabou o seu tempo. Vim te buscar”. Ao receber essa mensagem talvez me fizesse de desentendido:
-Não lhe conheço.”
- Mas sabe quem sou. Vamos!
Não há outra saída. Só resta lamentar aquilo que se deixou de fazer. O tempo é tão caro quando é curto. Mas quando sabemos que o temos de sobra normalmente não damos muita bola para ele. A resposta dele é o silêncio. Mudo, parece dizer: “Me aguarde”. Tão banalizado. Tão mal aproveitado. Será que é preciso a morte se anunciar para lembrarmos dele?
Meu primeiro encontro com a morte se deu aos onze anos. Até ali nunca havia pensado mais seriamente nela. Eu estudava na Escola Alegria do Povo, em Barra de Caravelas, no extremo sul da Bahia. Ao lado da escola ficavam a igreja e o cemitério. Ambos bem pequenos. Existia uma estranha diversão entre os garotos da minha idade no local. Subiam no muro para ver “Arroz Doce”, o coveiro do povoado, fazer o seu desditoso ofício. Até aquele dia eu não sabia que a mesma cova era reutilizada várias vezes. Quando fui convidado a assistir clandestinamente o sinistro acontecimento pensei que ia ver um homem retirando areia de um buraco. Tive um choque imenso quando apareceram os primeiros ossos. Era um fêmur. Estava enegrecido. Arroz Doce não se incomodou. Pegou uma picareta e puxou com uma espantosa naturalidade. Parecia até que ia plantar alguma coisa naquele solo. A pior parte ainda estava por vir. O crânio foi o que mais me impressionou. Entendi porque a caveira é o símbolo da morte. Tentei imaginar um rosto naquele lugar. Me vi. Vi o que restará de mim um dia. Vi o destino que o tempo me reserva. Aliás, reserva a todo nós. Ao bom e ao mau. Ao humilde e ao vaidoso. Ao rei e ao súdito. Aí está uma coisa que sobre a qual se pode afirmar sem receio: a morte é para todos, portanto, é democrática.
Passei o resto do dia e mais alguns subseqüentes com a imagem daquela caveira me assombrando. Quando eu pensava que já tinha esquecido, ela fazia questão de reaparecer justamente na hora em que eu ia dormir.
Quando cheguei em casa, brinquei com meu irmão como se fosse a última vez. Nem fiquei chateado quando minha madrasta reclamou pela centésima vez por eu ter deixado meu tênis no meio da sala. Também dei um abraço bem apertado em meu pai quando ele chegou do trabalho. Naquele dia me dei conta de que essa pequenas coisas precisam ser aproveitadas. Vai chegar um tempo em que não poderemos mais repeti-las.
Por enquanto não quero pensar muito em minha morte. Inevitavelmente o faço as vezes, quando essas incômodas funerárias atravessam o meu caminho. Ou melhor, elas estão no mesmo lugar. Eu é que passo na frente delas.
Aprendi que não se deve temer o inevitável. O tempo que nos arrasta certamente desembocará nesse mar de mistério. Então só me resta aproveitar a viagem. Não sei se na próxima curva do rio a foz estará me esperando.
Rafael Dias.
Amor e paixão, parceiros ou inimigos?
Falar de amor e paixão é uma tarefa um tanto arriscada. Porque essa tentativa vem acompanhada de uma possibilidade de êxito e fracasso em proporções inversamente opostas. Creio que o silêncio é preferível quando não se conhece os meandros pertinentes a um tema tão importante, que por muitas vezes se apresenta inefável, arredio ao intento dos incautos desbravadores.
Para o escritor é oportunidade de ser imortal, porquanto será lembrado por gerações infindáveis, como conseguiu Platão em “O Banquete” ou William Shakespeare em “Romeu e Julieta”. O contrário talvez seja o mais provável para a maioria dos mortais que se enveredam nesse terreno. Tenho lido tanta coisa sofrível e sem sentido. Também escuto muitas músicas com letras tão mal formuladas que não é possível sequer reconhecer o próprio tema que o autor alega tratar.
Esclarecidos no preâmbulo as condições e limitações do meu intento, lanço-me então à arriscada missão ou seja, responder a duas questões: o quê é o amor? O quê é a paixão?
Quem pensou que eu iria responder tais perguntas enganou-se redondamente, se é verdade que o engano seja redondo. O conhecedor de mistérios tão profundos certamente seria dos mais felizes mortais. Entretanto, para termos um ponto seguro de partida, precisaríamos definir de antemão o conceito de paixão e de amor. Infelizmente não conheci até hoje poeta ou prosador que conseguisse realizar esse feito. Tentarei somente, tomando como parâmetro a experiência pessoal (que por sinal foi parca. Portanto ousada se afigura a empreitada).
Começaremos pela paixão. É difícil encontrar uma pessoa que nunca se apaixonou. A paixão é passageira. Dura enquanto a chama é alimentada pelo desejo. Assim que este se esvai a paixão fica seriamente ameaçada. Muitas vezes ela própria abandona o apaixonado. É como se fosse a cura de para uma doença. Num momento a dor é intensa e pensamos que a tormenta nunca vai acabar. Passa o tempo e ficam só as cicatrizes. Já não sentimos mais nada. Só a lembrança, quando olhamos aquele sinal impresso no corpo.
A paixão é soberba e egoísta. Quer possuir o outro. Quer ter o outro sob seu domínio. Não admite concessões. Quando o faz , o ciúme, um dos efeitos colaterais mais severos da paixão, emerge altivo e intolerante do mais recôndito lugar do espírito. Então estimula o apaixonado aos atos mais delirantes e insensatos. A paixão persegue implacavelmente a razão. Assalta-a e a aprisiona num deserto inóspito. Lança fora a chave da cela e tenta esquecer a localização onde deixou companhia tão incômoda. A razão normalmente é inconveniente para o apaixonado. Faz questão de alertar-lhe a todo momento do risco e conseqüências de suas resoluções. Quem está apaixonado não quer ouvir nem entender nada. No início, há até alguma resistência. Mas depois não há como resistir. Estar apaixonado é como estar numa carruagem puxada por mil cavalos enlouquecidos. Não sabem ao certo o que o destino lhes reservam. Apenas sentem uma vontade incontrolada de correr, correr, correr... Os braços não sustentam as rédeas por muito tempo. O cocheiro se entrega e seja o que Deus quiser...!
O amor, pelo contrário é soberano. Não deseja pagamento. Não deseja possuir. Sente-se até mais feliz em dar, pois é completo. O amor não tem medo nem ciúmes. O amor entende. É maduro e sábio. É também discreto. Diferente da paixão, que é escandalosa, o amor é percebido nos pequenos detalhes. O amor não faz propaganda dos seus feitos. Sente para si, e sentindo, se preenche. O amor não usa maquiagem e nem roupas caras. É bonito em sua simplicidade. O amor não seduz. Atrai involuntariamente, assim como todas as outras coisas boas. O amor é amigo da razão, apesar de não depender dela para andar com as próprias pernas.
A vocês, que valentemente conseguiram chegar até este ponto do texto, tenho um má notícia para dar. Minha intenção não era querer definir o amor ou a paixão. Na verdade tenho pouca competência para tal ofício. Além mais é impossível traduzir o inefável. Tão difícil quanto é traduzir os nosso sentimentos. Eu só decidi escrever este texto porque eu sei que uma pessoa muito especial irá lê-lo. Esta mensagem é para você, MEU AMOR:
- JOICE, EU TE AMO!
Rafael Dias.
* Se vocês quiserem ler mais textos meus, é só acessar o meu blogger: www.amigodesophia.blogspot.com
Para o escritor é oportunidade de ser imortal, porquanto será lembrado por gerações infindáveis, como conseguiu Platão em “O Banquete” ou William Shakespeare em “Romeu e Julieta”. O contrário talvez seja o mais provável para a maioria dos mortais que se enveredam nesse terreno. Tenho lido tanta coisa sofrível e sem sentido. Também escuto muitas músicas com letras tão mal formuladas que não é possível sequer reconhecer o próprio tema que o autor alega tratar.
Esclarecidos no preâmbulo as condições e limitações do meu intento, lanço-me então à arriscada missão ou seja, responder a duas questões: o quê é o amor? O quê é a paixão?
Quem pensou que eu iria responder tais perguntas enganou-se redondamente, se é verdade que o engano seja redondo. O conhecedor de mistérios tão profundos certamente seria dos mais felizes mortais. Entretanto, para termos um ponto seguro de partida, precisaríamos definir de antemão o conceito de paixão e de amor. Infelizmente não conheci até hoje poeta ou prosador que conseguisse realizar esse feito. Tentarei somente, tomando como parâmetro a experiência pessoal (que por sinal foi parca. Portanto ousada se afigura a empreitada).
Começaremos pela paixão. É difícil encontrar uma pessoa que nunca se apaixonou. A paixão é passageira. Dura enquanto a chama é alimentada pelo desejo. Assim que este se esvai a paixão fica seriamente ameaçada. Muitas vezes ela própria abandona o apaixonado. É como se fosse a cura de para uma doença. Num momento a dor é intensa e pensamos que a tormenta nunca vai acabar. Passa o tempo e ficam só as cicatrizes. Já não sentimos mais nada. Só a lembrança, quando olhamos aquele sinal impresso no corpo.
A paixão é soberba e egoísta. Quer possuir o outro. Quer ter o outro sob seu domínio. Não admite concessões. Quando o faz , o ciúme, um dos efeitos colaterais mais severos da paixão, emerge altivo e intolerante do mais recôndito lugar do espírito. Então estimula o apaixonado aos atos mais delirantes e insensatos. A paixão persegue implacavelmente a razão. Assalta-a e a aprisiona num deserto inóspito. Lança fora a chave da cela e tenta esquecer a localização onde deixou companhia tão incômoda. A razão normalmente é inconveniente para o apaixonado. Faz questão de alertar-lhe a todo momento do risco e conseqüências de suas resoluções. Quem está apaixonado não quer ouvir nem entender nada. No início, há até alguma resistência. Mas depois não há como resistir. Estar apaixonado é como estar numa carruagem puxada por mil cavalos enlouquecidos. Não sabem ao certo o que o destino lhes reservam. Apenas sentem uma vontade incontrolada de correr, correr, correr... Os braços não sustentam as rédeas por muito tempo. O cocheiro se entrega e seja o que Deus quiser...!
O amor, pelo contrário é soberano. Não deseja pagamento. Não deseja possuir. Sente-se até mais feliz em dar, pois é completo. O amor não tem medo nem ciúmes. O amor entende. É maduro e sábio. É também discreto. Diferente da paixão, que é escandalosa, o amor é percebido nos pequenos detalhes. O amor não faz propaganda dos seus feitos. Sente para si, e sentindo, se preenche. O amor não usa maquiagem e nem roupas caras. É bonito em sua simplicidade. O amor não seduz. Atrai involuntariamente, assim como todas as outras coisas boas. O amor é amigo da razão, apesar de não depender dela para andar com as próprias pernas.
A vocês, que valentemente conseguiram chegar até este ponto do texto, tenho um má notícia para dar. Minha intenção não era querer definir o amor ou a paixão. Na verdade tenho pouca competência para tal ofício. Além mais é impossível traduzir o inefável. Tão difícil quanto é traduzir os nosso sentimentos. Eu só decidi escrever este texto porque eu sei que uma pessoa muito especial irá lê-lo. Esta mensagem é para você, MEU AMOR:
- JOICE, EU TE AMO!
Rafael Dias.
* Se vocês quiserem ler mais textos meus, é só acessar o meu blogger: www.amigodesophia.blogspot.com
quinta-feira, 29 de maio de 2008
“Filosofia de Botiquim”
Lí essa piada.Achei ótima e decidi compartilhar com vocês.
Filosofia de Botiquim.
1) Não sou um completo inútil... ao menos sirvo de mau exemplo.
2) Se você não é parte da solução é parte do problema.
3) Errar é humano, mas achar em quem colocar a culpa é mais humano ainda.
4) Meu Deus, dai-me paciência... mas tem que ser já!
5) O importante não é saber, mas ter o telefone de quem sabe. 8-))))))
6) O que sabe, sabe. O que não sabe é chefe
7) É bom deixar a bebida. O mau é não se lembrar aonde.
8) Existe um mundo melhor, mas é caríssimo.
9) A mulher que não tem sorte com os homens, não sabe a sorte que tem.
10) Trabalhar nunca matou ninguém, mas... por que se arriscar?
11) Não leve a vida tão a sério, afinal nem sairá vivo dela!
12) O álcool mata lentamente. Não tem problema, eu não tenho pressa.
13) Mate-se de estudar e será um cadáver culto.
14) São três as frases que abrem muitas portas: "Puxe", "Empurre" e
"Sai da Minha Frente".
Filosofia de Botiquim.
1) Não sou um completo inútil... ao menos sirvo de mau exemplo.
2) Se você não é parte da solução é parte do problema.
3) Errar é humano, mas achar em quem colocar a culpa é mais humano ainda.
4) Meu Deus, dai-me paciência... mas tem que ser já!
5) O importante não é saber, mas ter o telefone de quem sabe. 8-))))))
6) O que sabe, sabe. O que não sabe é chefe
7) É bom deixar a bebida. O mau é não se lembrar aonde.
8) Existe um mundo melhor, mas é caríssimo.
9) A mulher que não tem sorte com os homens, não sabe a sorte que tem.
10) Trabalhar nunca matou ninguém, mas... por que se arriscar?
11) Não leve a vida tão a sério, afinal nem sairá vivo dela!
12) O álcool mata lentamente. Não tem problema, eu não tenho pressa.
13) Mate-se de estudar e será um cadáver culto.
14) São três as frases que abrem muitas portas: "Puxe", "Empurre" e
"Sai da Minha Frente".
quarta-feira, 21 de maio de 2008
Jesus, marketing e poder
Muitas vezes ligo a televisão, mais por hábito que por gosto, e tenho a infeliz sensação da frustração de não ter nada para assistir. Não consigo encontrar nada que me interesse. Mas isso não é lá grande uma novidade.
A grande novidade foi a constatação que pude fazer outro dia. Acordei num sábado de manhã acionei o nefasto aparelho na esperança de me distrair enquanto continuava deitado na cama. Percebi uma estranha coincidência. À medida que eu passava os canais, inflamado pela expectativa infundada de encontrar algo que fosse “da minha conta”, pude observar que repetiam-se canais e mais canais que passavam programas religiosos. Logo pensei: “será que não tem nada melhor para passar num dia de sábado de manhã quando a gente acorda de ressaca?” Realmente não tem nada melhor. O resto do dia também não tem muita coisa que preste. Mas não foi esse o meu achado. Instigado pela descoberta desse fenômeno, resolvi me deter um pouquinho para tentar entender o porquê.
Primeiro contei quantos canais passavam em minha televisão naquela manhã. Depois contei quantos canais relacionados à instituições religiosas. Dos dezessete canais, nove exibiam programação de igrejas de diferentes denominações. Fiquei surpreso. Como sabemos, as emissoras de televisão tem fins comerciais, ou seja, criam programas que chamem a atenção para que empresas paguem para anunciar nos intervalos. Bem, essa é razão social da televisão. Por quê não colocar na grade um programa de esportes? Talvez tivesse mais audiência. Quem sabe até a minha? Como já disse, quando se trata de “fins comerciais”, vende-se a quem paga mais. Logo os representantes de Jesus tinham mais dinheiro que algumas empresas que poderiam anunciar no mesmo horário.
Sem dúvida, Jesus é uma marca muito lucrativa. Não sou eu que estou dizendo. A própria História já mostrou isso várias vezes. A “Companhia de Jesus” cumpriu direitinho o seu papel de amansar os índios para que estes não incomodassem mais os negócios de Portugal. As “Cruzadas” afiguram-se como um outro exemplo fantástico. Em nome de Jesus e dos santos, europeus invadiram o oriente para tirar o santo sepulcro das mãos dos “malvados” islâmicos. De quebra trouxeram também várias riquezas que pertenciam aos turcos. A medida que o negócio ficava lucrativo, mais e mais indivíduos aventureiros se animavam a servir à “causa santa”. Por esta época também era muito comum vender pedaços da cruz onde Jesus foi crucificado. Ossos de santos e toda sorte de apetrechos relacionados à figura do Filho de Deus também entravam nesta lista. No século XVI, os burgueses, incentivaram o desenvolvimento de uma nova vertente do cristianismo, o protestantismo. Isso porquê a Igreja católica condenava a usura, e ficava com uma parte dos lucros dos comerciantes desse tempo. Era preciso uma mudança de mentalidade. A bíblia tinha que ser interpretada de sorte que Jesus aprovasse, legitimasse a “prosperidade financeira”. Assim os burgueses poderiam fazer seus negócios com a consciência e o bolso tranqüilos. Lutero e Calvino cuidaram disso muito bem.
A “marca” Jesus é extremamente versátil. Pode ser usada para legitimar uma guerra. Também é muito eficiente em eleições. Um “homem de Deus” e seguidor de Jesus, aparentemente é muito mais confiável do que um sujeito “do mundo”.
Tampouco é necessário o uso da coerência. Neste mesmo sábado, onde tive a minha tentativa de assistir TV frustrada, pude ver com meus próprios olhos, que a terra e os vermes hão de comer, uma curiosa inferência lógica. Um pastor dizia aos brados que o fiel que adquirisse um tal carnê da fé conseguiria resolver “do nada” todos os seus problemas pessoais. Dizia que “do nada” a dívida seria paga. Também “do nada” o marido deixaria de beber. “Do nada” surgiria a tão sonhada casa própria. Obviamente me interessei pelo tal carnê. Há dois anos tento comprar a minha casa própria. Nunca vi uma solução tão simples para um problema. Resolvi então, refazer o argumento do pastor na tentativa de entender o método de conseguir o que eu desejava. Bem, o que é o nada? O nada é nada. Dentro do nada há o quê? Há nada. Logo, o que vem do nada necessariamente tem que ser nada. Pois é, achei essa relação de causa e efeito muito arriscada para mim. Decidi mudar de canal. O outro parecia ser mais realista e mais em acordo com a razão social da televisão. Camisetas, bíblias especiais em edições luxuosas tudo em promoção e dividido em várias vezes no cartão. Era possível encontrar também livros com a “palavra de Jesus” adaptada à toda sorte de necessidades, tipo: “como ter uma família abençoada” , “Jesus nos negócios”, “Jesus no amor”, dentre outros da mesma natureza. CDs de Jesus também eram vendidos e chegavam pelo correio. Muita coisa com o nome de dele era negociada. Tava explicado o mistério da grande quantidade de canais passando a “mensagem de Jesus”.
Sempre que posso, leio a bíblia. Jesus, o homem, é uma figura fantástica. Admiro muito a sua postura e suas sábias palavras. Acho uma pena ela ser tão destorcida e utilizada para fins tão desconexos com as suas idéias. Ainda bem que decidi fazer como o tão criticado discípulo, Tomé. Decidi ver para crer. Acabei me deparando com uma estrutura de pensamento sofisticadíssima, além de uma teoria ética extraordinária. Sua doutrina expressa um profundo humanismo. Talvez ele ficasse um pouco chateado com o que algumas pessoas fazem com a sua imagem.
Mas uma coisa eu tenho que concordar com os representantes comerciais de Jesus, não o homem, mas a marca. A palavra “Jesus” é realmente poderosa e faz milagres. Principalmente os econômicos. Já foi testada com sucesso muitas vezes na história. Os resultados comprovam uma respeitável eficiência. Enquanto objeto de marketing oferece imensas vantagens aos anunciantes. Não cobra cachê. Não se envolve com prostitutas nem travestis. Não reclama se a sua imagem é utilizada para além daquilo que foi estabelecido em contrato. E o melhor, é extremamente querido e todos confiam nele.
E aí? Você acha que tem garoto propaganda melhor que este. Duvido que a Nike ou a Coca-Cola tenha mais prestígio como marca quanto este nome. É um nome a ser pensado nas próximas contratações. O sucesso é garantido. O mercado é grande e os fãs são muitos. Não me espantaria se eu ligasse a televisão novamente e visse um homem trintão de cabelos cumpridos dando um gole saboroso em um refrigerante, fazendo aquela zoadinha de frescor (ahhrrr!) e dizendo: “Imagem não é nada. Sede é tudo. Beba...! Eu aprovo!
A grande novidade foi a constatação que pude fazer outro dia. Acordei num sábado de manhã acionei o nefasto aparelho na esperança de me distrair enquanto continuava deitado na cama. Percebi uma estranha coincidência. À medida que eu passava os canais, inflamado pela expectativa infundada de encontrar algo que fosse “da minha conta”, pude observar que repetiam-se canais e mais canais que passavam programas religiosos. Logo pensei: “será que não tem nada melhor para passar num dia de sábado de manhã quando a gente acorda de ressaca?” Realmente não tem nada melhor. O resto do dia também não tem muita coisa que preste. Mas não foi esse o meu achado. Instigado pela descoberta desse fenômeno, resolvi me deter um pouquinho para tentar entender o porquê.
Primeiro contei quantos canais passavam em minha televisão naquela manhã. Depois contei quantos canais relacionados à instituições religiosas. Dos dezessete canais, nove exibiam programação de igrejas de diferentes denominações. Fiquei surpreso. Como sabemos, as emissoras de televisão tem fins comerciais, ou seja, criam programas que chamem a atenção para que empresas paguem para anunciar nos intervalos. Bem, essa é razão social da televisão. Por quê não colocar na grade um programa de esportes? Talvez tivesse mais audiência. Quem sabe até a minha? Como já disse, quando se trata de “fins comerciais”, vende-se a quem paga mais. Logo os representantes de Jesus tinham mais dinheiro que algumas empresas que poderiam anunciar no mesmo horário.
Sem dúvida, Jesus é uma marca muito lucrativa. Não sou eu que estou dizendo. A própria História já mostrou isso várias vezes. A “Companhia de Jesus” cumpriu direitinho o seu papel de amansar os índios para que estes não incomodassem mais os negócios de Portugal. As “Cruzadas” afiguram-se como um outro exemplo fantástico. Em nome de Jesus e dos santos, europeus invadiram o oriente para tirar o santo sepulcro das mãos dos “malvados” islâmicos. De quebra trouxeram também várias riquezas que pertenciam aos turcos. A medida que o negócio ficava lucrativo, mais e mais indivíduos aventureiros se animavam a servir à “causa santa”. Por esta época também era muito comum vender pedaços da cruz onde Jesus foi crucificado. Ossos de santos e toda sorte de apetrechos relacionados à figura do Filho de Deus também entravam nesta lista. No século XVI, os burgueses, incentivaram o desenvolvimento de uma nova vertente do cristianismo, o protestantismo. Isso porquê a Igreja católica condenava a usura, e ficava com uma parte dos lucros dos comerciantes desse tempo. Era preciso uma mudança de mentalidade. A bíblia tinha que ser interpretada de sorte que Jesus aprovasse, legitimasse a “prosperidade financeira”. Assim os burgueses poderiam fazer seus negócios com a consciência e o bolso tranqüilos. Lutero e Calvino cuidaram disso muito bem.
A “marca” Jesus é extremamente versátil. Pode ser usada para legitimar uma guerra. Também é muito eficiente em eleições. Um “homem de Deus” e seguidor de Jesus, aparentemente é muito mais confiável do que um sujeito “do mundo”.
Tampouco é necessário o uso da coerência. Neste mesmo sábado, onde tive a minha tentativa de assistir TV frustrada, pude ver com meus próprios olhos, que a terra e os vermes hão de comer, uma curiosa inferência lógica. Um pastor dizia aos brados que o fiel que adquirisse um tal carnê da fé conseguiria resolver “do nada” todos os seus problemas pessoais. Dizia que “do nada” a dívida seria paga. Também “do nada” o marido deixaria de beber. “Do nada” surgiria a tão sonhada casa própria. Obviamente me interessei pelo tal carnê. Há dois anos tento comprar a minha casa própria. Nunca vi uma solução tão simples para um problema. Resolvi então, refazer o argumento do pastor na tentativa de entender o método de conseguir o que eu desejava. Bem, o que é o nada? O nada é nada. Dentro do nada há o quê? Há nada. Logo, o que vem do nada necessariamente tem que ser nada. Pois é, achei essa relação de causa e efeito muito arriscada para mim. Decidi mudar de canal. O outro parecia ser mais realista e mais em acordo com a razão social da televisão. Camisetas, bíblias especiais em edições luxuosas tudo em promoção e dividido em várias vezes no cartão. Era possível encontrar também livros com a “palavra de Jesus” adaptada à toda sorte de necessidades, tipo: “como ter uma família abençoada” , “Jesus nos negócios”, “Jesus no amor”, dentre outros da mesma natureza. CDs de Jesus também eram vendidos e chegavam pelo correio. Muita coisa com o nome de dele era negociada. Tava explicado o mistério da grande quantidade de canais passando a “mensagem de Jesus”.
Sempre que posso, leio a bíblia. Jesus, o homem, é uma figura fantástica. Admiro muito a sua postura e suas sábias palavras. Acho uma pena ela ser tão destorcida e utilizada para fins tão desconexos com as suas idéias. Ainda bem que decidi fazer como o tão criticado discípulo, Tomé. Decidi ver para crer. Acabei me deparando com uma estrutura de pensamento sofisticadíssima, além de uma teoria ética extraordinária. Sua doutrina expressa um profundo humanismo. Talvez ele ficasse um pouco chateado com o que algumas pessoas fazem com a sua imagem.
Mas uma coisa eu tenho que concordar com os representantes comerciais de Jesus, não o homem, mas a marca. A palavra “Jesus” é realmente poderosa e faz milagres. Principalmente os econômicos. Já foi testada com sucesso muitas vezes na história. Os resultados comprovam uma respeitável eficiência. Enquanto objeto de marketing oferece imensas vantagens aos anunciantes. Não cobra cachê. Não se envolve com prostitutas nem travestis. Não reclama se a sua imagem é utilizada para além daquilo que foi estabelecido em contrato. E o melhor, é extremamente querido e todos confiam nele.
E aí? Você acha que tem garoto propaganda melhor que este. Duvido que a Nike ou a Coca-Cola tenha mais prestígio como marca quanto este nome. É um nome a ser pensado nas próximas contratações. O sucesso é garantido. O mercado é grande e os fãs são muitos. Não me espantaria se eu ligasse a televisão novamente e visse um homem trintão de cabelos cumpridos dando um gole saboroso em um refrigerante, fazendo aquela zoadinha de frescor (ahhrrr!) e dizendo: “Imagem não é nada. Sede é tudo. Beba...! Eu aprovo!
terça-feira, 13 de maio de 2008
Orkut
Outro dia estava pensando no que me levava a participar do Orkut, esse famigerado site de relacionamentos. Parece até leviano deter-se e desperdiçar o tempo com uma questão tão fútil. De certa forma, seria mais um motivo para reforçar a idéia de que professores de filosofia são indivíduos que vivem fora da realidade.
Eu participava de várias comunidades. Normalmente meus domínios prediletos tinham nomes relacionados à inteligência, ao saber, à filosofia e outros afins. Entretanto, nem sempre o nome corresponde à coisa, e aparência acaba saindo vitoriosa frente à essência.
Um belo dia me peguei discutindo filosofia com um indivíduo que a odiava. No estágio em que chegamos, odiar não é mais novidade. Não me surpreende. O mais curioso é que tal tamanha aversão parecia injustificada, tendo em conta que o sujeito parecia não ter a mínima idéia do que estava falando. Simplesmente odiava. Cheguei a conversar um certo tempo, até o momento em que pude fazer esta constatação. Deveria ser óbvia para mim à primeira vista, tendo em conta que estava em uma comunidade onde as pessoas se dedicava exclusivamente à esta atividade. Entrei somente por curiosidade, para saber o as razões de alguém detestar algo que me encanta. Mais tarde entrei em uma comunidade que defendia e valorizava a inteligência (quanta presunção minha e dos meus pares também!). Esta parecia um pouco melhor. Pelo menos dava para perceber que algumas pessoas tinham feito leituras que eu já fiz. Havia muitos assuntos com os quais eu também tinha simpatia. Cheguei até a conversar com algumas pessoas sobre Camus*. O problema é que as opiniões eram tão artificiais, tão repetitivas, tão fantasiosas (maiores até que as minhas que me julgava ignorante e esperava aprender com os meus colegas especialistas) que um dos assuntos que eu mais gostava de discutir tornou-se completamente enfadonho e repetitivo. Se eu não tivesse, anteriormente, a oportunidade de ter contato com a obra de uma mente tão sutil como a deste argelino, talvez acabasse sentindo ojeriza do autor. Lembro-me que, na faculdade, havia um professor que sempre falava: “É preciso beber água diretamente da fonte. Nem sempre sabemos o que fizeram com ela no meio do caminho”. Meu Deus! À noite foi pior ainda. Conversando com um outro sujeito (até que o papo estava bom!) sobre o desencanto que a filosofia provoca quando quebra as nossas ilusões, muitas vezes alimentadas por toda sorte de ideologias que permeiam o imaginário popular, acabei fomentando um situação inusitada. Alguém que observava a conversa teve a brilhante idéia de criar um tópico desastroso. Eu ainda tive a infelicidade de respondê-lo.
Tal tópico propunha um estranho dilema para os participantes: “É melhor ser um filósofo depressivo ou um idiota feliz?”. Pois é, muitas pessoas se enquadraram nas duas categorias. Inclusive justificando as vantagens e desvantagens inerentes à uma ou outra condição. O tópico é aparentemente ingênuo. Entretanto, quando se escolhe um desses grupos para fazer parte acaba-se admitindo que o filósofo é um indivíduo depressivo ou que os idiotas são felizes em sua inépcia. O problema é que eu não me sentia incluído em nenhuma dessas categorias. Mais uma vez acabei como o peixe fora dagua.
Esse é mais um sinal do esvaziamento, da falta de sentido proporcionada pela forma de viver que escolhemos. As ideologias, as religiões de massa, o apelo à felicidade através do consumo terminam isolando os indivíduos, que vão se tornando cada vez mais artificiais, tal qual o mundo que vivem. Eu também não estou livre. Vez ou outra também sou seduzido pelo impulso. Não resisto e “dou uma espiadinha”.
Eu participava de várias comunidades. Normalmente meus domínios prediletos tinham nomes relacionados à inteligência, ao saber, à filosofia e outros afins. Entretanto, nem sempre o nome corresponde à coisa, e aparência acaba saindo vitoriosa frente à essência.
Um belo dia me peguei discutindo filosofia com um indivíduo que a odiava. No estágio em que chegamos, odiar não é mais novidade. Não me surpreende. O mais curioso é que tal tamanha aversão parecia injustificada, tendo em conta que o sujeito parecia não ter a mínima idéia do que estava falando. Simplesmente odiava. Cheguei a conversar um certo tempo, até o momento em que pude fazer esta constatação. Deveria ser óbvia para mim à primeira vista, tendo em conta que estava em uma comunidade onde as pessoas se dedicava exclusivamente à esta atividade. Entrei somente por curiosidade, para saber o as razões de alguém detestar algo que me encanta. Mais tarde entrei em uma comunidade que defendia e valorizava a inteligência (quanta presunção minha e dos meus pares também!). Esta parecia um pouco melhor. Pelo menos dava para perceber que algumas pessoas tinham feito leituras que eu já fiz. Havia muitos assuntos com os quais eu também tinha simpatia. Cheguei até a conversar com algumas pessoas sobre Camus*. O problema é que as opiniões eram tão artificiais, tão repetitivas, tão fantasiosas (maiores até que as minhas que me julgava ignorante e esperava aprender com os meus colegas especialistas) que um dos assuntos que eu mais gostava de discutir tornou-se completamente enfadonho e repetitivo. Se eu não tivesse, anteriormente, a oportunidade de ter contato com a obra de uma mente tão sutil como a deste argelino, talvez acabasse sentindo ojeriza do autor. Lembro-me que, na faculdade, havia um professor que sempre falava: “É preciso beber água diretamente da fonte. Nem sempre sabemos o que fizeram com ela no meio do caminho”. Meu Deus! À noite foi pior ainda. Conversando com um outro sujeito (até que o papo estava bom!) sobre o desencanto que a filosofia provoca quando quebra as nossas ilusões, muitas vezes alimentadas por toda sorte de ideologias que permeiam o imaginário popular, acabei fomentando um situação inusitada. Alguém que observava a conversa teve a brilhante idéia de criar um tópico desastroso. Eu ainda tive a infelicidade de respondê-lo.
Tal tópico propunha um estranho dilema para os participantes: “É melhor ser um filósofo depressivo ou um idiota feliz?”. Pois é, muitas pessoas se enquadraram nas duas categorias. Inclusive justificando as vantagens e desvantagens inerentes à uma ou outra condição. O tópico é aparentemente ingênuo. Entretanto, quando se escolhe um desses grupos para fazer parte acaba-se admitindo que o filósofo é um indivíduo depressivo ou que os idiotas são felizes em sua inépcia. O problema é que eu não me sentia incluído em nenhuma dessas categorias. Mais uma vez acabei como o peixe fora dagua.
Esse é mais um sinal do esvaziamento, da falta de sentido proporcionada pela forma de viver que escolhemos. As ideologias, as religiões de massa, o apelo à felicidade através do consumo terminam isolando os indivíduos, que vão se tornando cada vez mais artificiais, tal qual o mundo que vivem. Eu também não estou livre. Vez ou outra também sou seduzido pelo impulso. Não resisto e “dou uma espiadinha”.
quarta-feira, 7 de maio de 2008
Bioética
Hoje muito se fala sobre bioética. Nos noticiários, a palavra é convocada toda vez que se discute questões relacionadas à pesquisas com embriões humanos, alimentos transgênicos ou os limites permitidos para se usar animais em experimentos científicos.
Mas afinal, o que é bioética?
Pode se dizer que é o estudo transdisciplinar entre biologia, medicina e filosofia. Surgiu da preocupação com uma administração responsável da vida humana. Tem o objetivo de dirimir questões onde não há um consenso moral no que diz respeito à suas aplicações práticas. Recorre-se à bioética quando se discute, por exemplo, o momento em que começa a vida, se no momento da fecundação ou na ocasião em que o embrião já está em estado adiantado de formação. Também é um problema da bioética a eutanásia, ou seja, determinar se um indivíduo ou a família tem o direito de ceifar uma vida humana, mesmo quando não há mais esperança de cura.
Essa discussões desembocariam num eterno dilema sem um aparato teórico para dar sustentação às opiniões a favor e contra. Isso porque há vários pontos de vista diferentes e dissidentes entre si a respeito dessa natureza de assunto. Os dogmas religiosos não estão dispostos a verem os seus princípios entrarem em contradição por causa do apoio a determinadas causas. A ciência, por sua vez tem um sentido, uma forma de ser mais prática. Há urgência por resultados. A descoberta de novos tratamentos ou conhecimentos técnicos não podem esperar o final da querela. A bioética tem justamente a função de oferecer critérios para o debate, bem como também fornecer uma fundamentação mais elaborada para determinar o que é permitido ou não nesse jogo. Esse jogo é justamente a relação entre o conhecimento biológico e os valores humanos.
Mas afinal, o que é bioética?
Pode se dizer que é o estudo transdisciplinar entre biologia, medicina e filosofia. Surgiu da preocupação com uma administração responsável da vida humana. Tem o objetivo de dirimir questões onde não há um consenso moral no que diz respeito à suas aplicações práticas. Recorre-se à bioética quando se discute, por exemplo, o momento em que começa a vida, se no momento da fecundação ou na ocasião em que o embrião já está em estado adiantado de formação. Também é um problema da bioética a eutanásia, ou seja, determinar se um indivíduo ou a família tem o direito de ceifar uma vida humana, mesmo quando não há mais esperança de cura.
Essa discussões desembocariam num eterno dilema sem um aparato teórico para dar sustentação às opiniões a favor e contra. Isso porque há vários pontos de vista diferentes e dissidentes entre si a respeito dessa natureza de assunto. Os dogmas religiosos não estão dispostos a verem os seus princípios entrarem em contradição por causa do apoio a determinadas causas. A ciência, por sua vez tem um sentido, uma forma de ser mais prática. Há urgência por resultados. A descoberta de novos tratamentos ou conhecimentos técnicos não podem esperar o final da querela. A bioética tem justamente a função de oferecer critérios para o debate, bem como também fornecer uma fundamentação mais elaborada para determinar o que é permitido ou não nesse jogo. Esse jogo é justamente a relação entre o conhecimento biológico e os valores humanos.
segunda-feira, 28 de abril de 2008
Filosofia e depressão
Filosofia e depressão
Para ser filósofo não precisa ser depressivo. Vivemos em mundo fabricado onde o indivíduo é forçado, de certa forma, a inserir-se em algum projeto sugestionado pela sociedade. Você deve ter um time do coração, uma religião, uma profissão, participar de determinados grupos, etc.
A filosofia não traz depressão. O problema é que, quando se é iniciado, entra-se em um caminho sem volta rumo à quebra desses paradigmas. Você passa a entender, por exemplo, que os times de futebol tem como objetivo principal fazer com que algumas empresas lucrem com publicidade. A preocupação com o torcedor não é primordial. Se assim fosse, os times mais queridos não cobrariam pelo ingresso, apenas retribuiriam o carinho. O torcedor, nesse cenário, é apenas um mercado consumidor para determinado produto. Isso ocorre em vários outros âmbitos da vida. Pensamos que estamos fazendo uma coisa muito importante, mas na verdade o que fazemos é abdicar de um projeto próprio para condicionar-se a outros que já estão em andamento. Dessa forma, anulamos a nossa possibilidade de liberdade.
Quando se é iniciado em filosofia (pelo menos aquele que estuda com um pouquinho mais de seriedade) aprende-se a olhar o mundo de uma forma desconfiada. Através desse olhar, é que se percebe que muita coisa que considerávamos relevantes não passam de superficialidades, de forma sem conteúdo. É como se o encanto fosse quebrado, assim como as mágicas do Mister M. Quando se sabe o truque que está por trás da ilusão, aquilo que era encantador torna-se sem graça. O problema é que quando se descobre o segredo do truque, não há outra coisa para colocar no lugar. É como encarar a vida de cara limpa. É nesse sentido que as vezes a vida do filósofo torna-se menos "emocionante" do que a vida daqueles que estão encantados e embriagados por alguma ideologia.
Para ser filósofo não precisa ser depressivo. Vivemos em mundo fabricado onde o indivíduo é forçado, de certa forma, a inserir-se em algum projeto sugestionado pela sociedade. Você deve ter um time do coração, uma religião, uma profissão, participar de determinados grupos, etc.
A filosofia não traz depressão. O problema é que, quando se é iniciado, entra-se em um caminho sem volta rumo à quebra desses paradigmas. Você passa a entender, por exemplo, que os times de futebol tem como objetivo principal fazer com que algumas empresas lucrem com publicidade. A preocupação com o torcedor não é primordial. Se assim fosse, os times mais queridos não cobrariam pelo ingresso, apenas retribuiriam o carinho. O torcedor, nesse cenário, é apenas um mercado consumidor para determinado produto. Isso ocorre em vários outros âmbitos da vida. Pensamos que estamos fazendo uma coisa muito importante, mas na verdade o que fazemos é abdicar de um projeto próprio para condicionar-se a outros que já estão em andamento. Dessa forma, anulamos a nossa possibilidade de liberdade.
Quando se é iniciado em filosofia (pelo menos aquele que estuda com um pouquinho mais de seriedade) aprende-se a olhar o mundo de uma forma desconfiada. Através desse olhar, é que se percebe que muita coisa que considerávamos relevantes não passam de superficialidades, de forma sem conteúdo. É como se o encanto fosse quebrado, assim como as mágicas do Mister M. Quando se sabe o truque que está por trás da ilusão, aquilo que era encantador torna-se sem graça. O problema é que quando se descobre o segredo do truque, não há outra coisa para colocar no lugar. É como encarar a vida de cara limpa. É nesse sentido que as vezes a vida do filósofo torna-se menos "emocionante" do que a vida daqueles que estão encantados e embriagados por alguma ideologia.
sexta-feira, 18 de abril de 2008
Anpof (Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia)
De dois em dois anos acontecem Encontros Nacionais, onde estão presentes os maiores pesquisadores nacionais, bem como também estrangeiros.
Os últimos dois encontros ocorreram na Bahia, em 2004 e 2006. Em 2008 acontecerá em Canela, no Rio Grande do Sul.
Um dos principais objetivos da Anpof é fomentar a investigação filosófica no país.
Quem quiser saber mais é só acessar o link do site da Anpof que está nesta página.
Os últimos dois encontros ocorreram na Bahia, em 2004 e 2006. Em 2008 acontecerá em Canela, no Rio Grande do Sul.
Um dos principais objetivos da Anpof é fomentar a investigação filosófica no país.
Quem quiser saber mais é só acessar o link do site da Anpof que está nesta página.
quinta-feira, 17 de abril de 2008
Arquivo Super interessante
Essa é muito boa!
Os editores da revista "Super interessante" liberaram os arquivos contendo todas as edições publicadas nos últimos 20 anos. O conteúdo é muito bom e diversificado. Matérias diversas sobre filosofia, ciência, história, comportamento, etc. É só acessar o link ao lado. Vale a pena conferir!
Os editores da revista "Super interessante" liberaram os arquivos contendo todas as edições publicadas nos últimos 20 anos. O conteúdo é muito bom e diversificado. Matérias diversas sobre filosofia, ciência, história, comportamento, etc. É só acessar o link ao lado. Vale a pena conferir!
Livros de Filosofia para baixar
Serviço de Utilidade Pública!
Quando eu estava ainda na graduação do curso de filosofia, passei por maus bocados na no que diz respeito ao material didático para estudar. As boas traduções e edições são muito caras, pouco acessíveis à maioria dos estudantes. O outra solução era a xerocar os textos. Entretanto essa via também trazia consigo alguns inconvinientes. Primeiro, também não estava isenta de custos. Segundo dá um trabalhão para guardar todas aquelas folhas de papel. Todo esse conhecimento impresso acaba indo para o lixo. Pensando nisso, resolvi disponibilizar no meu blog links para livros de filosofia. A maioria são edições consagradas e de boa qualidade. E o melhor: inteiramente grátis!!!
Portanto disponham e aproveitem a leitura!
Quando eu estava ainda na graduação do curso de filosofia, passei por maus bocados na no que diz respeito ao material didático para estudar. As boas traduções e edições são muito caras, pouco acessíveis à maioria dos estudantes. O outra solução era a xerocar os textos. Entretanto essa via também trazia consigo alguns inconvinientes. Primeiro, também não estava isenta de custos. Segundo dá um trabalhão para guardar todas aquelas folhas de papel. Todo esse conhecimento impresso acaba indo para o lixo. Pensando nisso, resolvi disponibilizar no meu blog links para livros de filosofia. A maioria são edições consagradas e de boa qualidade. E o melhor: inteiramente grátis!!!
Portanto disponham e aproveitem a leitura!
quarta-feira, 16 de abril de 2008
Livros e programas grátis para baixar
Descobri um ótimo site que oferece livros e programas para baixar totalmente grátis. São temas variados, além de orientar como é possível livrar-se da ditadura da Internet. Visitem. É ótimo. Estou disponibilizando o link ao lado. O nome do site é Coletivo Sabotagem.
O Estrangeiro (trecho)
"Também lá, em redor desse asilo onde as vidas
se apagavam, a noite era como uma treva melancólica. Tão perto
da morte, a minha mãe deve ter-se sentido libertada e pronta a tudo
reviver. Ninguém, ninguém tinha o direito de chorar sobre ela.
Também eu me sinto pronto a tudo reviver. Como se esta grande
cólera me tivesse limpo do mal, esvaziado da esperança, diante
desta noite carregada de sinais e de estrelas, eu abria-me pela
primeira vez à terna indiferença do mundo. Por o sentir tão parecido
comigo, tão fraternal, senti que fora feliz e que ainda o era. Para que
tudo ficasse consumado, para que me sentisse menos só, faltava-me
desejar que houvesse muito público no dia da minha execução e que
os espectadores me recebessem com gritos de ódio."
Albert Camus, "O Estrangeiro"
se apagavam, a noite era como uma treva melancólica. Tão perto
da morte, a minha mãe deve ter-se sentido libertada e pronta a tudo
reviver. Ninguém, ninguém tinha o direito de chorar sobre ela.
Também eu me sinto pronto a tudo reviver. Como se esta grande
cólera me tivesse limpo do mal, esvaziado da esperança, diante
desta noite carregada de sinais e de estrelas, eu abria-me pela
primeira vez à terna indiferença do mundo. Por o sentir tão parecido
comigo, tão fraternal, senti que fora feliz e que ainda o era. Para que
tudo ficasse consumado, para que me sentisse menos só, faltava-me
desejar que houvesse muito público no dia da minha execução e que
os espectadores me recebessem com gritos de ódio."
Albert Camus, "O Estrangeiro"
O Estrangeiro (trecho)
"Pouco depois o chefe mandou-me chamar e fiquei
aborrecido porque pensei que me ia dizer para telefonar menos e
trabalhar mais. Não era nada disso. Declarou que me ia falar
num projeto ainda muito vago. Queria apenas saber a minha
opinião sobre o assunto. Tencionava instalar um escritório em
Paris, para tratar diretamente com as grandes companhias
e perguntou-me se eu estava disposto a ir. Poderia assim viver em
Paris e viajar durante parte do ano. "Você ainda é novo e creio que
essa vida lhe agradaria". Disse que sim, mas que no fundo me era
indiferente. Perguntou-me depois se eu não gostava de uma
mudança de vida. Respondi que nunca se muda de vida, que em
todos os casos, todas as vidas se equivaliam e que a minha, aqui,
não me desagradava."
Albert Camus
aborrecido porque pensei que me ia dizer para telefonar menos e
trabalhar mais. Não era nada disso. Declarou que me ia falar
num projeto ainda muito vago. Queria apenas saber a minha
opinião sobre o assunto. Tencionava instalar um escritório em
Paris, para tratar diretamente com as grandes companhias
e perguntou-me se eu estava disposto a ir. Poderia assim viver em
Paris e viajar durante parte do ano. "Você ainda é novo e creio que
essa vida lhe agradaria". Disse que sim, mas que no fundo me era
indiferente. Perguntou-me depois se eu não gostava de uma
mudança de vida. Respondi que nunca se muda de vida, que em
todos os casos, todas as vidas se equivaliam e que a minha, aqui,
não me desagradava."
Albert Camus
sexta-feira, 11 de abril de 2008
quinta-feira, 10 de abril de 2008
A Busca
A busca parece ser, antes de uma ação, um sentimento humano. A inquietação, a pergunta que não quer calar, a discrepância entre o que ouvimos e o que vemos, são os principais móveis para a procura constante de uma resposta . Evidentemente este mal (ou bem, a depender do ponto de vista e do indivíduo) não se estende a todos. A maioria dos homens parecem satisfeitos com as explicações que receberam desde a infância. A busca, essa necessidade de saber mais sobre os rumos do nosso destino, são reservados àqueles que desejam sinceramente exercer a sua humanidade[1]. Os que não necessitam buscar, já estão satisfeitos com as explicações oferecidas pelos noticiários, pelas igrejas, professores, livros de auto-ajuda, etc.
Aqui, refiro-me à busca genuína, aquela que nos incomoda quando estamos sozinhos, nos colocam diante de dilemas toda vez que um novo caminho se apresenta. Normalmente é sugerida pelo espírito que deseja um remédio, um calmante para ficar dentro de nós quietinho e deixar de nos incomodar não definitiva, mas apenas temporariamente.
Não posso dizer que pelo menos uma vez na vida nos questionamos a respeito do real motivo de se estar aqui neste mundo. Efetivamente há pessoas que jamais se interrogarão a esse respeito. Isso não quer dizer que se trata de seres inferiores na escala da existência. Definitivamente, não. A necessidade de abrandar a turbulência que agita o espírito é o que conduz o homem na direção da busca. Quando se está acomodado confortavelmente neste mundo, a última coisa que desejamos é sair deste lugar e se expor aos perigos da inquietação, correndo o risco de perder o seu refúgio e ficar vagando sem paradeiro certo, sem pátria e sem exílio. Se já decidimos o caminho a ser percorrido e estamos certos de que esta é a única estrada possível, só nos resta a resignação e tentar aproveitar a viagem comodamente. Por outro lado, se inúmeras possibilidades são apresentadas, a escolha é muito dolorida. Optar por um dos caminhos é negar e deixar para trás todos os outros. É abandonar todas as outras formas possíveis de viver.
Vez ou outra, aparece um filósofo, um profeta, um pastor ou cantor de banda de rock que diz algo diferente sobre a forma de se viver. Decerto, é sempre bom ter alternativas quando temos que fazer escolhas. O problema é que algumas pessoas, irrefletidamente, vão muito mais além do que isso. Aderem esses pontos de vista como única realidade possível. A opinião passa a ter o mesmo valor que a verdade. Blindada por todos os lados, transforma-se em seitas, partidos, sociedades, etc. Os indivíduos absorvidos por esta “verdade” são capazes de sacrificar até a própria vida em nome da “causa”. Tentam desesperadamente convencer outros a aceitarem a mesma idéia. Dessa forma validam a ação, na medida em sentem-se seguros “todo mundo” acredita na mesma coisa que ele.
Como diz um antigo adágio, “em terra de cego, quem tem um olho é rei”. Pois bem, não se quer dizer que o pastor, o filósofo, o profeta, o cantor de rock, ou qualquer outro que apresente uma ideologia como orientação para a ação, estejam maldosamente intencionado a conduzir as pessoas que fazem parte de sua audiência ao caminho do engodo. A crítica reside somente na postura de aceitar a unilateralidade como via para julgar a realidade. Não há equívoco em se escolher uma ideologia para viver. O problema é que muitas pessoas não investigam o caminho proposto antes de percorrê-lo. É como receber uma encomenda sem olhar o que tem dentro e acreditar piamente que conteúdo declarado está dentro da caixa certamente. É justamente nesse ponto frágil que agem os aproveitadores, aqueles que “possuem um olho só” em meio aos cegos. Se sabem de antemão que o outro não costuma olhar o que tem dentro pacote, o que os impediria de oferecer um pacote vazio ou com conteúdo diferente ao receptor negligente? Absolutamente nada a não ser os valores que cultiva. Como bem sabemos, nem sempre os valores éticos são observados quando se deseja chegar a um objetivo. “Os fins justificam os meios”, mesmo que os meios sejam injustificados. Mas o que se quer dizer em verdade? É que desejo de acreditar em vez do desejo de buscar pode custar a liberdade. Muitos caem nas presas de toda sorte de demagogos e espertalhões exatamente por esse motivo. O caminho mais fácil, ou o mais confortável, pode nos conduzir a um lugar que não gostaríamos de estar ou então pior do que aquele em que estamos agora.
Para onde ir então? Não se sabe. Está em aberto. É o preço a ser pago por escolher a busca, lugar onde moram a angústia e a incerteza. É semelhante a viver em um deserto, em uma floresta ou nas ruas. No entanto parece ainda ser uma via melhor do que optar pela prisão onde tudo é explicado, porém sem nenhuma garantia final.
Rafael Dias.
[1] Humanidade aqui não quer dizer simplesmente ser homem. Representa algo mais, que vai na direção de um desejo de querer se realizar, querer ser pleno, ir além do sentido aparente que é oferecido sob as mais variadas formas de ideologias (N. do autor).
rapheldiaz_1@yahoo.com.br
A busca parece ser, antes de uma ação, um sentimento humano. A inquietação, a pergunta que não quer calar, a discrepância entre o que ouvimos e o que vemos, são os principais móveis para a procura constante de uma resposta . Evidentemente este mal (ou bem, a depender do ponto de vista e do indivíduo) não se estende a todos. A maioria dos homens parecem satisfeitos com as explicações que receberam desde a infância. A busca, essa necessidade de saber mais sobre os rumos do nosso destino, são reservados àqueles que desejam sinceramente exercer a sua humanidade[1]. Os que não necessitam buscar, já estão satisfeitos com as explicações oferecidas pelos noticiários, pelas igrejas, professores, livros de auto-ajuda, etc.
Aqui, refiro-me à busca genuína, aquela que nos incomoda quando estamos sozinhos, nos colocam diante de dilemas toda vez que um novo caminho se apresenta. Normalmente é sugerida pelo espírito que deseja um remédio, um calmante para ficar dentro de nós quietinho e deixar de nos incomodar não definitiva, mas apenas temporariamente.
Não posso dizer que pelo menos uma vez na vida nos questionamos a respeito do real motivo de se estar aqui neste mundo. Efetivamente há pessoas que jamais se interrogarão a esse respeito. Isso não quer dizer que se trata de seres inferiores na escala da existência. Definitivamente, não. A necessidade de abrandar a turbulência que agita o espírito é o que conduz o homem na direção da busca. Quando se está acomodado confortavelmente neste mundo, a última coisa que desejamos é sair deste lugar e se expor aos perigos da inquietação, correndo o risco de perder o seu refúgio e ficar vagando sem paradeiro certo, sem pátria e sem exílio. Se já decidimos o caminho a ser percorrido e estamos certos de que esta é a única estrada possível, só nos resta a resignação e tentar aproveitar a viagem comodamente. Por outro lado, se inúmeras possibilidades são apresentadas, a escolha é muito dolorida. Optar por um dos caminhos é negar e deixar para trás todos os outros. É abandonar todas as outras formas possíveis de viver.
Vez ou outra, aparece um filósofo, um profeta, um pastor ou cantor de banda de rock que diz algo diferente sobre a forma de se viver. Decerto, é sempre bom ter alternativas quando temos que fazer escolhas. O problema é que algumas pessoas, irrefletidamente, vão muito mais além do que isso. Aderem esses pontos de vista como única realidade possível. A opinião passa a ter o mesmo valor que a verdade. Blindada por todos os lados, transforma-se em seitas, partidos, sociedades, etc. Os indivíduos absorvidos por esta “verdade” são capazes de sacrificar até a própria vida em nome da “causa”. Tentam desesperadamente convencer outros a aceitarem a mesma idéia. Dessa forma validam a ação, na medida em sentem-se seguros “todo mundo” acredita na mesma coisa que ele.
Como diz um antigo adágio, “em terra de cego, quem tem um olho é rei”. Pois bem, não se quer dizer que o pastor, o filósofo, o profeta, o cantor de rock, ou qualquer outro que apresente uma ideologia como orientação para a ação, estejam maldosamente intencionado a conduzir as pessoas que fazem parte de sua audiência ao caminho do engodo. A crítica reside somente na postura de aceitar a unilateralidade como via para julgar a realidade. Não há equívoco em se escolher uma ideologia para viver. O problema é que muitas pessoas não investigam o caminho proposto antes de percorrê-lo. É como receber uma encomenda sem olhar o que tem dentro e acreditar piamente que conteúdo declarado está dentro da caixa certamente. É justamente nesse ponto frágil que agem os aproveitadores, aqueles que “possuem um olho só” em meio aos cegos. Se sabem de antemão que o outro não costuma olhar o que tem dentro pacote, o que os impediria de oferecer um pacote vazio ou com conteúdo diferente ao receptor negligente? Absolutamente nada a não ser os valores que cultiva. Como bem sabemos, nem sempre os valores éticos são observados quando se deseja chegar a um objetivo. “Os fins justificam os meios”, mesmo que os meios sejam injustificados. Mas o que se quer dizer em verdade? É que desejo de acreditar em vez do desejo de buscar pode custar a liberdade. Muitos caem nas presas de toda sorte de demagogos e espertalhões exatamente por esse motivo. O caminho mais fácil, ou o mais confortável, pode nos conduzir a um lugar que não gostaríamos de estar ou então pior do que aquele em que estamos agora.
Para onde ir então? Não se sabe. Está em aberto. É o preço a ser pago por escolher a busca, lugar onde moram a angústia e a incerteza. É semelhante a viver em um deserto, em uma floresta ou nas ruas. No entanto parece ainda ser uma via melhor do que optar pela prisão onde tudo é explicado, porém sem nenhuma garantia final.
Rafael Dias.
[1] Humanidade aqui não quer dizer simplesmente ser homem. Representa algo mais, que vai na direção de um desejo de querer se realizar, querer ser pleno, ir além do sentido aparente que é oferecido sob as mais variadas formas de ideologias (N. do autor).
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