terça-feira, 19 de abril de 2011

A quem interessar

Não quero parecer chato e nem do contra, até porque, a partir do que eu posso observar no dia a dia, as palavras sem a ação não adiantam e nem resolve nada. Perdoe-me colegas, isso é só um desabafo de um cidadão que infelizmente ainda não conseguiu perder a capacidade de se indignar diante de tanta coisa que nos traz tanto sofrimento e aborrecimentos diariamente, portanto já deveria estar acostuma do e devidamente conformado. O que me aborrece ainda mais é ter a consciência de que esses problemas aparentemente tem uma solução tão simples, mas parece que um espírito sádico que vive nos calabouços das instituições brasileiras insistem em nos atormentar. Estou falando de alguns serviços públicos que parecem que foram projetados para dar errado e gerenciados para este mesmo fim.
Esta semana tentei três dias consecutivos reconhecer firma em dois cartórios de Salvador. Mesmo com funcionamento das 9:00 às 15:00, é necessário quase madrugar para conseguir pegar uma senha só para o cara comparar uma assinatura e lhe devolver o papel com uma espécie de carimbo. No terceiro dia, enfim, consegui uma senha, porém o atendimento era tão lento, que após quase duas horas de funcionamento, só haviam chamado treze pessoas. Não me conformei porque não é razoável um cidadão perder um dia inteiro só para colocar um carimbo em um documento. Fui embora para resolver outra coisa. Só para ter um parâmetro da incompetência e a ineficiência do cartório, cheguei um pouco depois na Secretaria Geral de Cursos da minha faculdade para trancar algumas disciplinas. Peguei a senha nº 88 quando só haviam chamado somente 38 pessoas e fui atendido em menos de uma hora. E olha que este tipo de atendimento me pareceu mais complexo, tendo em vista que tinha que ser preenchido requerimento, justificativas, registrar a solicitação no sistema, etc. Esse fato só me fez ficar com mais raiva ainda do péssimo atendimento do cartório. Agora me pergunto: se é um serviço essencial porque quem deveria fiscalizar não enxerga tanto descaso, tanta morosidade, tanto desrespeito para com o cidadão?
Outra coisa que não consigo entender é má qualidade da educação que é prestada nas instituições públicas de ensino básico. 25% do orçamento público deve ser aplicado em educação. Quando você imagina um país que bate recordes após recordes de arrecadação dá para se ter uma idéia na quantidade de dinheiro que é destinado para este fim. Crianças ano após ano são aprovadas para a série seguinte sem ao menos saber ler, o que deveria ser elementar, já que é a base para todos os outros conteúdos ministrados numa escola. Nos sites das secretarias de educação do Brasil todo, expõe-se, com orgulho, a educação em números. São ressaltados os avanços e a melhoria dos últimos anos. Mas o que se vê, na prática é a formação de um exercito de pessoas despreparadas, que terão como destino provável a condição de desempregados, tendo em vista a o elevado grau de exigência que se tem hoje para se entrar no mercado de trabalho. Com o aumento de pessoas que estão ingressando na classe C nos últimos anos, sobem também as mensalidades das escolas particulares e o aumento de vagas nessas instituições. Nenhum pai que dar a seu filho um coisa que ele sabe de antemão que não tem qualidade e é muito importante para o futuro dele. Ficamos reféns, encurralados e não temos outra opção a não ser pagar caro para que nossos filhos não participem dessas estatísticas duvidosas. Enfim, a quem interessa que a educação pública funcione tão mal?
Também me aflige o problema da violência. Andamos com medo. Não temos mais o direito de ir a um barzinho à noite perto de casa. Salvador bate um recorde após o outro no número de assassinatos a cada fim de semana. As pessoas estão fechando as ruas com portões. Paga-se um absurdo com estacionamento para não correr o risco de deixar o carro no meio da rua. Sem contar as empresas de segurança que se proliferam para atender a este novo nicho de mercado: o medo. É muito triste e até macabro ter que se adaptar à esta realidade. E o pior de tudo que este problema esta ganhando ares de normalidade, como se fizesse parte de uma lei natural que as coisas fossem assim e não responsabilidade do Estado, dos gestores, dos homens que tem o poder decisório nas mãos e que assistem a tudo com a maior tranqüilidade, apegados a números e gráficos que dizem que as coisas estão melhorando. Somos todos mentirosos então, porque temos que negar o que os nossos olhos vêem e sacrificar a nossa inteligência porque tem um juízo contrário diante de tantos elementos para julgamento que nos são oferecidos fartamente nos noticiários e nas situações que acompanhamos no dia a dia.
O pior de tudo é a sensação de impotência, de saber que você pode fazer pouca coisa ou quase nada. É angustiante ter que se conformar com esta realidade. O que é que está acontecendo? Como cidadão, me sinto engessado, com os dois braços amarrados para trás. O pior de tudo é que faz até medo pedir um providência a quem de direito. Parece que problema, que mesmo exposto de forma obscena, não deve ser comentado. Me perdoem, mas eu precisa respirar. Sei que isto não vai resolver nada. Mas eu precisava escrever isto para me anestesiar, para ter a sensação de estar fazendo alguma coisa.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

MIneiros chilenos, e se fosse no Brasil?

MIneiros chilenos, e se fosse no Brasil?


Acompanhei desde o início o resgate dos mineradores chilenos que foram soterrados em uma mina de cobre. Confesso que fiquei comovido e impressionado com a condição à qual aqueles homens foram submetidos. Tenho enjôos só de me imaginar em um buraco localizado a centenas de metros debaixo do chão. Imagino a angústia provocada pela incerteza de saber se sairia vivo ou não de uma situação tão extrema, inédita na história dos resgates.
Fiquei surpreso com a eficiência do governo chileno. É claro que o presidente deles deu uma valorizada. Afinal, não é todo dia que a imprensa mundial em peso mostra a sua cara na telinha e nos jornais de todo o mundo. Mas, justiça seja feita. A previsão inicial era de que os soterrados só sairiam no natal. Foram socorridos mais de dois meses antes. Até a NASA elogiou o procedimento dos técnicos chilenos para salvar seus compatriotas. Quando vi aquela cápsula (que parecia muito com um comprimido antibiótico) subir com o primeiro resgatado, abandonei o último laivo de incredulidade que ainda me acompanhava. Como Tomé, eu vi e acreditei. Tive que dar moral aos chilenos, pois eles, realmente, são retados, virados no estopor! Tem que ser muito macho mesmo para perfurar a rocha maciça de forma bastante precisa e retirar todo mundo como se estivessem subindo um simples elevador. Foi rápido, prático e eficiente.
Pensei: e se acontecesse um acidente desses aqui, no Brasil. Bom, ia ser um pouco difícil. Se não me falha a memória, aliado ao meu pouco conhecimento do assunto, só me lembro da Vale do Rio Doce. Mas vejo na televisão somente grandes caminhões carregando minério de ferro, extraídos, provavelmente um pouco abaixo da superfície. Mas porque devo me preocupar com isso, se não sou mineiro e muito menos ando por aí cavucando buracos? É, pensando bem não é uma questão tão importante, capaz de interferir no curso normal da minha vida. Então, deixa prá lá.
Mas esse pessoal de filosofia é foda. Vive sempre propondo uma questão atrás da outra. Sendo assim, não posso desistir tão fácil. Sempre é possível acontecer um imprevisto. Nesse caso, seria muito bom que estivéssemos preparados. Quem poderia nos proteger, caso enfrentássemos uma situação parecida com a dos mineiros chilenos? A resposta é óbvia. Só poderia ser ele! Ele mesmo que você está pensando: O Chapolim Colorado! Não é sacanagem não. Se você refletir com cuidado, vai chegar à conclusão de que você estaria lascado mesmo. Pois Chapolim Colorado é mexicano e aqui no Brasil as coisas não andam com tanta eficiência quanto no Chile.
Só para ilustrar o que estou dizendo, vou começar de baixo, com uma coisa simples. Se você estudou em uma escola pública, vá lá e peça uma segunda via do seu histórico escolar. Para conseguir este mísero documento você vai ter que esperar incríveis sessenta dias! Ou seja, o tempo para você conseguir seu documento seria quase igual ao tempo de resgatar um chileno que ficasse soterrado no mesmo momento em que você fez a sua solicitação. É verdade. Isso porque fazer um histórico escolar é muito mais difícil que perfurar até as profundezas da Terra.
Nosso país demorou mais de trezentos anos para entender que um ser humano não é bicho, um animal, como o boi o cavalo que se tem como propriedade, obrigado a trabalhar em troca de ração e tomando chicotadas. Esse entendimento que parece inacreditável nos dias de hoje, durou três séculos.
Passou-se também vinte anos para se chegar à conclusão de que os governantes do povo devem ser eleitos pelo povo, não importando a qualidade dos candidatos. Mas isso é até uma coisa das mais simples que acontecem por aqui. Se você pensar que, por exemplo: você está doente hoje, vai ao SUS. Chegando lá, dizem que só estão marcando consultas no mês que vem. No mês que vem você pega uma fila do tamanho do infinito. Consegue uma senha suada e marca a sua consulta para daqui há seis meses. Passam-se os seis meses. Quando, enfim, você é atendido pelo médico, descobre que os seus exames não tem mais validade e que será necessário fazer tuuuudo de novo! Sacanagem da zorra, né?! Pior ainda é quando você entra com um processo na justiça. Rapaz, prepare o espírito para superar Jó em paciência e resignação. Para começar, vá num cartório solicitar qualquer coisa para ver o tratamento delicado e amável que será dispensado pra você. Se tiver sorte, só vai esperar uma manhã inteira para reconhecer firma em um documento ou fazer uma autenticação. Mas, se você teve a infelicidade de ter um direito ofendido e entrou com uma ação... Aí meu irmão, respire fundo e conserve a sua saúde, pois são raros os procedimentos dessa natureza que demoram menos de um ano. Se a outra parte quiser dificultar a sua vida ainda mais e requerer diferentes recursos, seu processo vai entrar numa fila ainda maior que a do SUS para um juiz só atender.
Dava para encher uma enciclopédia só com exemplos, classificados em ordem alfabética, cronologicamente e com índice onomástico. Mas, por enquanto, “prefiro não comentar”. Parece até surreal, como alguma história de Kafka. Porém, se para conseguir coisas que entendemos como simples e necessárias para o bom andamento da nossa vida no dia já é preciso uma verdadeira Odisséia, imagine só se você ficasse preso em um buraco a centenas de metros de profundidade. É meu irmão, parece que o seu final não seria muito feliz. Muito provavelmente lá seria a sua sepultura., um pouco mais funda que a convencional, é verdade. Pelo menos teria um enterro gratuito. Porém, nem tudo estaria perdido. Quem saberia se a Petrobrás não iria te salvar, já que é pioneira em perfuração águas profundas? Pois é, rapaz, esqueci de outro detalhe. Parece que a nossa grande estatal tem coisa mais importante para perfurar em nome do progresso do país do que eu ou você, cidadão simples, que perece esperando o milagre de ser atendido com dignidade pelo Estado ao pertencemos.
Mas não precisa você ficar triste não, amigo. Temos motivos de sobra para também ter orgulho do nosso país. Somos pentacampeões mundiais e temos o maior carnaval do mundo. Quer uma razão melhor que essa para você ficar feliz e não sentir inveja dos chilenos?

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Dignidade da pessoa humana, pra que serve?

Dignidade da pessoa humana, pra que serve?

Hoje é comum se falar em direitos humanos, em dignidade da pessoa humana, em proteção às crianças, em salvas as vítimas do terremoto Haiti, enfim, está na moda e é politicamente correto defender tais causas. Mas, afinal de contas, que diabo é isso, direitos humanos?
A idéia não é nova. começou com Immanuel Kant, um filósofo alemão que participou da corrente do Iluminismo. Segundo este sábio, o ser humano é um fim em si mesmo. Ou seja, pelo simples fato de ser humano, possui uma dignidade intrínseca diferente das outras coisas do mundo e dos objetos, que possuem um valor (econômico ou de troca) . Partindo desse entendimento, o filósofo defende que não se deve fazer certo tipo de coisa com um ser humano, como havia acontecido antes, e, infelizmente, continuou acontecendo após a morte do filósofo. O princípio da dignidade da pessoa humana está intimamente ligado à idéia de que o homem deve se realizar e exercer a sua liberdade, a possibilidade de escolher o seu destino e que o Estado deve criar os meios para que isto aconteça.
Evidentemente, as idéias de Kant ficaram só plano das idéias mesmo. Para ser sincero foi até melhor para ele que ficasse assim, pois, à sua época os governantes dos Estados totalitários e absolutistas não estavam muito preocupados em discutir esse tipo de assunto. Foi somente com a Revolução Francesa que abriu-se um lapso para este horizonte. Em 1789, foi aprovada pela Assembléia Nacional Constituinte, pós revolução, a Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão. Contudo, no tripé que sustentava os ideais iluministas da insurreição, somente a liberdade foi uma preocupação real. Uma liberdade que se assemelha àquela expressão que diz: “cada um por si, e Deus por todo mundo”. Dessa forma, a idéia de liberdade francesa não se aliava muito ao conceito de dignidade da pessoa humana. Alguns anos depois da revolução, no início do século XIX, nas ruas da Cidade das Luzes o que reinava era a pobreza, a sujeira e o mal cheiro. Seres humanos misturados aos ratos. Era o início do mundo industrial, que reduzia o homem à uma mera peça que movia as máquinas. No resto do mundo não era muito diferente. Os impérios tratavam os habitantes das colônias como seres não humanos. O índio, o negro e o nativo das terras subjugadas pelas potências não passavam de criaturas excêntricas que serviam para produzir riqueza e morrerem na miséria. Com certeza, tais governantes nunca leram Kant. E, se leram, estavam ocupados com coisas de ordem prática. Estas sim, tem poder e constroem economias.
Pulo-do-gato só aconteceu em 1948, quando a Assembléia Geral das Nações Unidas, proclamaram a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Dessa vez, estavam dispostos a dar um passo importante politicamente para a realização de tais direitos fundados na idéia da dignidade da pessoa humana. Muitos países adotaram em seus textos constitucionais, ou seja, as leis máximas de uma nação. Mas essa transformação não ocorreu de forma gratuita. As duas guerras mundiais que se desdobraram na primeira metade do século XX apresentaram um cenário, um espetáculo de horror nunca visto antes na história da humanidade. Adolf Hitler foi responsável pelo extermínio de mais de seis milhões de seres humanos, por motivos fúteis, associados à preconceitos religiosos e étnicos. Os EUA, não titubearam ao utilizar duas bombas atômicas para atacar cidades do Japão. A técnica foi protagonista de um espetáculo de horror a serviço da guerra, do poder. Ficou muito claro que a perversidade humana, coisa que sempre existiu, agora não tinha mais limites. Se antes, o desrespeito pela vida do próximo tinha como impedimento a limitação do corte da espada, as catapultas, ou a precariedade do arcabuz, agora não havia mais limites. dezenas de milhões de vidas foram ceifadas através do aperfeiçoamento tecnológico das armas de guerra. Era um sinal muito claro de que alguma coisa deveria ser feita. Do contrário, a existência da humanidade corria sério risco de extinção. A dignidade da pessoa humana foi invocada. Mas por que não antes, desde quando os escritos de Kant ultrapassaram as barreiras da cidade de Königsberg? Parece que o verdadeiro argumento que convenceu as grandes potências foi: Agora aceito salvar o mundo, pois assim garanto a salvação da minha pele também. À esta altura, não eram somente os escravos, os africanos, os índios e os nativos que careciam da proteção à dignidade da pessoa humana. Mas a humanidade como um todo.
Hoje, mais de sessenta anos após esta declaração, a dignidade da pessoa humana permanece no papel. Este princípio fundamental estampa o Art. 1º , inciso III da Constituição Brasileira promulgada em 1988, como um dos fundamentos do nosso Estado. Mas basta dar uma caminhada pelas ruas de qualquer grande cidade do Brasil para constatar que os chamados direitos humanos vigoram somente no plano das idéias. De manhã, cedo, é possível ver adultos e crianças amontoados embaixo de marquises e viadutos. Filas de velhos e doentes durante as madrugadas. Se tiverem sorte, conseguirão uma senha para o atendimento em um posto do INSS. Os hospitais públicos não merecem nem comentários. Os corredores cheios lembram mais um caminho para morte. É expressão perfeita do cenário apocalíptico, onde, segundo as sagradas escrituras, haverá choro, gritos e ranger de dentes. Nas periferias, nos guetos, abandono e assassinatos são a punição para pessoas que cometeram um único crime: nascerem pobres. Afinal para que pobre quer direitos humanos? O Estado se comporta como se essa classe de pessoas servissem somente para duas coisas: votar e servir de mão de obra barata. Ultimamente, nem para isto estão servindo. Os índices de desemprego e a falta de perspectiva de vida empurram os jovens cada vez mais cedo para o mundo das drogas, onde são consumidores e vendedores. Mas o destino é um só, a morte. Que modelo de sociedade é essa que vivemos? Ainda há quem diga que “direitos humanos é para bandido”. Para ser sincero, não estão totalmente errados. O STF criou até uma súmula vinculante porque um famoso banqueiro foi preso e algemado por policiais federais. Algemar um suspeito de solapar o sistema financeiro nacional é ir de encontro ao princípio da dignidade humana. Matar aos poucos milhares de doentes que precisam de atendimento adequado, porque se desvia rios de dinheiro da pasta da saúde, é só uma questão administrativa. Não é um assunto de grande relevância estatal. O que falar então do sistema judiciário onde vigora a injustiça prática escondida pelo manto da justiça formal? O processo acaba sendo o principal meio de fazer com que a justiça não aconteça. Normalmente os mais injustiçados não conhecem os trâmites do direito processual. Por isto são presas fáceis para empresas e poderosos armados até os dentes com seus habilidosos advogados. Um processo chega a durar mais de uma década até a sua decisão final. Muitas vezes os processos são extintos e arquivados porque a parte requerente esperou uma vida inteira para ver o seu direito realizado. Morreram sabendo que o judiciário não tem pressa. Mas a vida tem, pois, como dizia o poeta, o tempo não pára.
A dignidade da pessoa humana é uma idéia bonita. Suscita boas discussões intelectuais, análise de conceitos e até temas interessantes para divagar e escrever textos. Porém, quando olhamos o mundo, percebemos que existe uma distância muito grande entre o papel e a realidade. A indiferença anda junto com o poder. Infelizmente somente o poder tem legitimidade para dizer o que é dignidade ou não. Não importa se os filósofos, poetas e escritores discorram sobre o assunto. A história é prova de o que realmente vale não são as melhores idéias ou soluções, mas a ação. Enquanto o poder de agir estiver concentrado nas mãos de quem só pensa em seus próprios interesses, a dignidade humana dos mais fracos vai valer o que sempre valeu: muito pouco ou quase nada.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Tirirca deputado

Nos últimos dias venho acompanhando várias notícias na internet sobre o palhaço Tiririca, aquele que ficou conhecido cantando a música “Florentina”. Ele agora é candidato a deputado federal pelo estado de São Paulo. O cara é realmente um figura, pois é um dos poucos que assumem que a democracia brasileira se tornou uma piada através do seu slogan “ Vote em Tiririca, pior do que tá, não fica”.
Esse evento, a candidatura, não deixa de ser engraçado e sintomático ao mesmo tempo, pois já está enraizada no imaginário de boa parte dos cidadãos do nosso país a idéia de que política deixou de ser coisa séria há muito tempo. Faltava somente algum político assumir isso com todas as letras. Parece que não falta mais. Os congressistas provavelmente terão entre seus pares um deputado que é uma comédia.
Até aí, menos mal, pois, se tratando do cenário político brasileiro, podemos esperar com sentimento de normalidade que as situações mais esdrúxulas aconteçam. O que está me causando estranhamento de verdade é o incômodo que a candidatura de Francisco Everardo Oliveira Silva vem causando, tanto a outros políticos quanto a algumas instituições. Vozes indignadas levantam-se pedindo respeito, ética e moralidade no trato da coisa pública. Dizem que o pobre Tiririca não é um candidato sério( e parece não ser mesmo, pois só o vejo dando risada). Recorrem a todo momento à palavra democracia, tão gasta na boca dos políticos para justificar todo tipo de coisa, para desqualificar o palhaço candidato. Mas, não seria um pressuposto da própria democracia a possibilidade de qualquer cidadão chegar ao poder? Tanto o é que, mandato após mandato, elegem-se indivíduos com a ficha corrida que os fariam ter dificuldade de encontrar emprego como varredores de rua, quando tivessem os seus currículos e a vida pregressa avaliados. Mesmo assim a nossa justiça e os nossos políticos não protestam e nem alegam desrespeito à nossa democracia ou à dignidade da coisa pública.
É sabido também que o poder não é um instrumento dos ingênuos e nem dos homens que simplesmente tem sede e fome de justiça. O poder é o meio pelo qual os fortes viabilizam os seus interesses. Os fins justificam os meios. A vergonha, a moral e a ética nem sempre andam de mãos dadas com a política. No Brasil, o poder político é conquistado através do voto. Um exemplo cabal desse tipo de poder é o fenômeno Lula, que se tornou praticamente um mito, porquê até os adversários evitam atacá-lo e posam ao lado da imagem dele nos programas eleitorais de oposição. Algumas pesquisas de opinião de intenções de voto do estado de São Paulo prevêem uma vitória de Tiririca com aproximadamente um milhão de votos. Uma questão que cabe neste caso é a seguinte: quem são os eleitores de Tirirca senão a população mais humilde e com o senso crítico menos desenvolvido? Agora ficou mais fácil de entender. Imagine você, um medalhão, desses que ainda acreditam na existência, de fato, dos currais eleitorais. Desses que gastam uma fortuna em propaganda na certeza de conquistar o coração das massas que não avaliam com muito critério em quem vão votar. De repente, vem um Tirirca da vida fazendo chacota de si mesmo e do cargo de deputado, e, brincado morde a espantosa cifra de um milhão de votos, mostrando que o “curral eleitoral” não estava tão fechado quanto parecia. Qual a solução? Ministério Público nele.
Já fizeram gato e sapato de Tirirca. Acusaram-no de analfabeto. Mas pra quê deputado precisa saber ler, se faltam a boa parte das sessões e votam matérias sem saber o conteúdo. Sem contar a fortuna que se gasta de verba de gabinetes para contratar assessores. Mas analfabeto vota, será que ele não sabe o que está fazendo, será que estão colocando em perigo o futuro do país? Parece que não, pois o código eleitoral considera isto lega. Disseram agora que o cearense não havia declarado seus bens na ficha cadastral eleitoral. O que dizer então do deputado que tinha um castelo de 25 milhões de reais. Será que é difícil enxergar um imóvel tão modesto?
É Tirirca, parece que não querem que você seja deputado mesmo. Logo agora que eu já estava me divertindo. Sempre soube, ao observar determinadas práticas e algumas personagens, que o congresso era uma piada. A diferença é, desta vez, pelo menos teria graça.

sábado, 3 de julho de 2010

Nosso lixo de cada dia

Outro dia, quando separava papéis que não me serviam mais para jogar fora, percebi que, por mais que eu quisesse contribuir para o desenvolvimento sustentável, tema tão em voga nos dias atuais, eu não conseguiria. Juntei uma quantidade grande de papel que foi misturada com o lixo da minha casa para ser recolhido no dia seguinte.
No final de semana passado, eu, junto com alguns amigos compramos cerca de vinte latinhas de cerveja para acompanhar o pequeno churrasco que fizemos. Todas as latinhas tiveram como destino o lixo misturado com outros resíduos.
Me incomodou muito ter que jogar esse material de qualquer jeito no lixo, porque sei que, além de ser extremamente nocivo ao meio ambiente, poderia gerar emprego e renda para pessoas que vivem do recolhimento de material reciclável.
Tanto o papel quanto o alumínio possuem valor comercial no mercado da reciclagem. No carnaval, por exemplo, famílias inteiras dedicam-se à coleta desse material, porém as condições de trabalho a que se submetem são sub humanas .
Imagino que o poder público, se quiser, pode fazer muito para resolver tanto o problema do meio ambiente, quanto dar condições de trabalho dignas às pessoas que vivem do recolhimento de material reciclável. Nó cidadãos também poderíamos fazer a nossa parte de verdade, não como na história do beija-florzinho, mas atitudes efetivas que poderiam transformar a situação que temos atualmente. Em relação ao poder público, poderiam fazer o seguinte:

1) Disponibilizar em locais estratégicos reservatórios ou caixas de coleta seletiva, separando metais, vidro, plástico e papel. Mas até aí não há muita novidade, apesar de uma ação eficiente, pois já vi coletores desses principalmente próximos à hospitais.

2) A novidade seria a manutenção dessas caixas pela iniciativa privada, por exemplo, para que os cofres públicos não fossem onerados e a eficácia da ação não fosse comprometida pelos embargos burocráticos. Poderia se agir da seguinte forma:
a) Ofereceria-se incentivos fiscais para as empresas que se dispusessem a adquirir os equipamentos, bem como ceder o espaço das caixas coletoras ou reservatórios para a exploração de publicidade das empresas parceiras. Dessa forma, além de contribuir para a conservação do meio ambiente, haveria o interesse econômico a ser explorado, o que cobriria os custos e tornaria o negócio atrativo para os interessados.

b) Para contribuir com a geração de emprego, far-se-ia um cadastro das pessoas que vivem dessa atividade informalmente, sem cobertura da previdência e sem acesso aos direitos trabalhistas. Seria importante também a criação de oficinas de capacitação para orientar as pessoas que fossem trabalhar com esta atividade em aspectos como: segurança no trabalho, para evitar acidentes; administração do tempo, para que se conseguisse uma maior produtividade dentro de uma jornada de trabalho de oito horas, por exemplo; palestrantes, para incentivar os trabalhadores que poderiam sentir a sua auto estima abalada por desempenharem uma tarefa que pode ser discriminada, pelo fato de trabalharem com algo que os outros descartaram.

c) Por fim, além de conscientizar a população em geral através de campanhas publicitárias enfatizando a importância da preservação do meio ambiente pela via da coleta seletiva, reservando, ainda uma porcentagem da arrecadação pecuniária com esta atividade para instituições filantrópicas, como as que se dedicam ao tratamento de crianças com câncer, por exemplo. Assim, a população se sentiria ainda mais motivada para contribuir, tendo em que além da preservação do meio ambiente, estaria em jogo também a melhoria das condições de vida de pessoas que estão necessitadas.

Outra iniciativa simples, barata, e, até lucrativa seria a união de moradores da mesma rua ou mesmo condomínio para ter retorno financeiros ou melhorias em suas ruas ou espaços comuns. Poderia ser feito um acordo entre os moradores para que todos separassem em suas casas esses diferentes tipos de material que seriam descartados. Alguém, o zelador, o funcionário ou uma pessoa predeterminada ficaria com a responsabilidade de armazenar esse material em local adequado até que se juntasse uma quantidade suficiente para que uma empresa que trabalha com reciclagem tivesse interesse em recolhe-lo na própria rua ou domicílio. O dinheiro arrecadado, serviria como abatimento no valor do condomínio, pagamento da água, a pintura da fachada das casas, a colocação de azulejos ou pisos na extensão dos passeio dos moradores que contribuíram, patrocinaria uma festa ou a colocação de bandeirolas ou iluminação em festas como São João ou Natal. Enfim, poderia ser feita uma infinidade de coisas que, além de contribuir para a preservação do meio ambiente, ainda traria benefícios econômicos para muitas pessoas. Fica aí lançada a idéia!

Um abraço.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

A Selva

Como representantes mais poderosos da selva, o Leão, o Tigre e o Crocodilo, resolveram se reunir para tratar de assunto comum que tiravam-lhes o sossego ultimamente. Na verdade, não eram muito próximos, não andavam juntos e nem compartilhavam as mesmas coisas. Um era soberano nas florestas, o outro nas savanas e o terceiro exercia o seu domínio nos pântanos. Porém, neste momento crítico, precisavam unir forças para resolver o problema que tanto lhes afligiam.
Ocorreu que as presas se rebelaram, utilizando-se de estratégias ousadas, inesperadas e ardilosas para se defenderem dos ataques mortíferos que sofriam. Embora houvesse ainda muito alimento para os três grandes predadores que sempre foram hegemônicos, tornava-se cada vez mais difícil caçar com o mesmo êxito de antes.
O Tigre, que tinha como sua dieta habitual macacos que viviam em árvores, estava com o focinho todo ferido. Os primatazinhos, que antes faziam só travessuras, aprenderam a fabricar pequenos espetos de madeira que serviam para estocar a cabeça dos felinos quando estes tentavam escalar os troncos em busca de sua vítima. Na semana passada chegou a ficar três dias com fome até pegar um macaquinho distraído que não viu a sua aproximação.
O Leão também estava indignado. As zebras, antílopes e búfalos passaram a pensar. Dedicavam boa parte do dia ao treinamento de pontapés e coices muito doloridos quando acertavam em cheio. O Rei da Selva estava com uma costela quebrada e muitos hematomas espalhados pelo corpo, frutos da sua última caçada. Fora objeto de riso e chacota até das hienas, que eram animais muito inferiores na cadeia alimentar. Com a moral em baixa e sem credibilidade, chegou a comer carniça para não morrer de fome.
O Crocodilo também sofria com esta onda de rebeldia e resistência. Suas presas se organizaram para escavar um canal que desviava água suficiente para matar a sede de todos, porém muito raso para que um crocodilo se escondesse para utilizar a sua principal tática: a surpresa.
- Já está na hora de darmos um basta nisto! – bradou o Leão.
- Nunca fui tão humilhado! Todos sabiam o seu lugar na natureza! A lei sempre disse que o mais forte é quem decide, quem tem os direitos. Quem eles pensam que são para nos desafiar dessa forma?! – expressou toda a sua indignação o Tigre.
- Temos que achar o responsável por isso e puni-lo de forma exemplar para que todos esses insolentes saibam muito bem quem manda por aqui. – vaticinou o Crocodilo.
- Responsável? – perguntou o Leão.
- Sim. Deve existir alguém por trás dessa palhaçada. Alguém que não sabe com quem está brincando.
- Mas, como podemos encontrá-lo e o que devemos fazer? – indagou preocupado o Tigre.
- Em primeiro lugar devemos ganhar a confiança deles. Depois saber quem é o líder. Então cortamos a cabeça e o corpo cairá em seguida. – respondeu o Crocodilo, que parecia ser o mais esperto.
Os três juntaram-se e foram para um campo bem aberto, onde pudessem ser vistos por todos. Fingiam pastar. Comia grama seca e cuspiam tudo fora quando não havia ninguém observando. Com isto, tentavam mostrar que estavam no mesmo patamar que as suas vítimas. As presas ficaram perplexas e demoraram muito para acreditar no que estavam vendo. Os dias iam se passando e aquilo ganhava um ar de normalidade. Os três poderosos exercitavam a paciência. A confiança era conquistada na mesma proporção em que a memória das caças ia ficando mais fraca e esquecendo dos conflitos do passado. Um dia, o Leão se aproximou cautelosamente e puxou conversa com algumas zebras, que continuavam desconfiadas:
- Não vê que nos arrependemos e mudamos? Por que não esquecemos o passado e vamos viver todos em paz? Os tempos são outros. A evolução chegou e transformou a gente. Não tenho mais aqueles hábitos horrorosos e malvados. Cansamos de viver sozinhos e isolados. Queremos somente uma chance para mostrar que não somos mais os mesmos e viver em comunidade.
Uma zebra olhou para outra. Era difícil acreditar, mas estava acontecendo. O Tigre e o Crocodilo mantinham-se longe, observando dissimuladamente. Pareciam confiáveis aquelas palavras. Todo cuidado era pouco. Mas resolveram levar a demanda do Leão até a Coruja. A verdadeira responsável por todas aquelas mudanças.
- Não acreditem. A natureza nunca se trai. Quem nasceu para ser leão jamais será cordeiro. Apenas estão substituindo a força pela inteligência, da mesma forma que vocês fizeram!
As palavras da coruja foram ignoradas. Era grande a excitação por parte das zebras e outros animais desprivilegiados da cadeia alimentar. Foram seduzidos e embriagados pelo glamour de dizer que se era amigo do Leão e do Tigre. De inimigos vorazes passaram ao status de popstars. Os filhotes ficavam admirados com os rugidos e demonstrações de força. Davam sorrisos, acenavam e cumprimentavam a todos. Onde chegavam, o burburinho se formava. Tinha até briga para vê-los mais de perto.E, assim, tudo voltou como era antes. Uma nova espécie de domínio e submissão nascia. Na frete das multidões e manadas, os três comportavam-se como heróis, sustentando de forma muito disciplinada esta aparência. Durante a madrugada e nos lugares mais ermos, continuavam a exercer a sua natureza de predadores, devorando os incautos, os mais fracos e os ingênuos. Ficou a lição de que os fortes sempre andam juntos, independentemente das diferenças que existam entre eles. A Coruja mais uma vez foi superada em sua tentativa de levar esclarecimento àqueles que precisam. Resolveu então se calar e não tentar mais subverter as leis que imperam na natureza desde o início dos tempos.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Pensando na vida

Pensando na vida

Às vezes me pego pensando na vida. Pensamento ingratos , é claro, pois vida não é coisa para ser pensada, mas somente vivida. Vida pensada é corromper a natureza. Então, muitas vezes me pego corrompendo a natureza e me dá vontade de mudar tudo inconseqüentemente, aproveitar o ímpeto que o momento suscita. Nessas horas quero ser tudo que não fui e cuidar para que, no futuro, eu venha a ser somente aquilo que eu quero. Mas penso na vida de novo, e novamente volto para o momento anterior à reflexão. Me vejo covarde. Me vejo prudente. Me vejo e não me reconheço...
Seria mais fácil não pensar. Muita gente faz isso bem. Abdicam exageradamente da faculdade que o criador lhes ofereceu. Agem guiados somente pelos instintos. Realizam Nietzsche e não sentem culpa. Transbordam o ser e deliciam-se com o perigo de subverter as regras que orientam e saciam as expectativas alheias. O sujeito cognoscente dá lugar ao sujeito que sente. Tudo tem seu preço. A vida sabe e motiva. O indivíduo civilizado recua. Tá certo?
Há jogos que só permitem duas opções. Ou se ganha ou se perde. Quem aposta alto, corre o risco de ficar rico. Ou então perecer, e cair nas amarras da pobreza. Aqui não cabe o meio termo como pregava Aristóteles. O médio é o medíocre, é o nada. É comer e satisfazer-se sem sabor. Embora a fome não o incomode, o prazer também não é completo. É sexo sem gozo. É vitória sem título. É ter e não ser dono...
E se no dia do pagamento do meu salário eu pegasse todo o dinheiro e apostasse no jogo do bicho. Ficaria rico, ou, pelo menos teria uma mudança econômica significativa em minha vida. Se perdesse, como, infelizmente as probabilidades teimam em apontar como o mais certo, ficaria sem pagar o aluguel e as compras do mês, o transporte para o trabalho e todas as outras obrigações que um “dito cidadão respeitável” deve cumprir. Não sei se é mais confortável o limbo e a vida insossa ou o calor do inferno ou a paz do céu. Sei somente que é imensamente angustiante a sensação se ver no meio de uma estrada, sem estar em uma cidade ou outra. Mas a vida é assim mesmo, feita de escolhas. Só o tempo vai dizer se acertamos.
Enquanto isso, mesmo com todos os inconvenientes, vou continuar pensando na vida, e, por conseqüência, corrompendo a natureza. Se não sei ao certo o que fazer, não posso me furtar de continuar minha procura. Quem sabe um dia eu chegue e possa curtir as outras possibilidades que a vida nos dá.


Rafael Dias