quinta-feira, 10 de julho de 2008

A História de um ladrão

Guiguiu nasceu no Monte Azul, um entre as centenas de morros que existem na cidade de Salvador. Sua infância se passou na década de noventa e, apesar de todas as adversidades econômicas que ocorriam em sua família, pode se dizer que foi uma criança feliz. Brincou de “fura-pé”, jogou gude, empinou muita “arraia” e deu muita dor de cabeça à sua avó, Dona Xôxa.
Acima eu tinha falado família, mas acho que é necessário fazer algumas correções ou adaptações à este conceito. Entendemos por família o conjunto de indivíduos formado por pais mães, filhos, tios, etc. A única pessoa no mundo que Guiguiu tinha, ou melhor, Gustavo Santos da Silva, como estava na sua certidão de nascimento, era Dona Xôxa. No registro de nascimento constava o nome da mãe. Mas Guiguiu não lembrava dela. Quando o menino tinha dois meses, Nina (era assim que chamavam a sua mãe) foi embora com um taxista e nunca mais voltou. Algumas amigas diziam que a filha de Dona Xôxa fora para a Espanha trabalhar, mas voltaria um dia para buscar o filho. Guiguiu acreditou nisso até os doze anos, quando a rua lhe impôs uma prematura maturidade. Muitas vezes o garoto perguntava à avó sobre a identidade e o paradeiro do pai. A anciã desconversava. Dizia que não gostava nem de lembrar desta história para não se aborrecer.
Guiguiu crescia “solto”, como se diz por estas bandas de cá. Acordava cedo, tomava café, pegava a mochila e saía. Dava meio dia e nada do menino voltar da escola. Dona Xôxa ainda ficava apreensiva no início. Preparava o chinelo e falava em voz alta:
- Hoje eu mato este menino de pancada! Ah, se mato!
Dava cinco... seis... sete... e, somente às oito horas da noite Guiguiu chegava com a cara mais limpa do mundo. A avó explodia de alegria por dentro, mas tentava conter-se para não dar “ozadia” ao diabinho:
- Tava aonde seu miserável?! Que me matar, é? Já não basta a “outra” ( a outra era a mãe dele) que fez o que fez ?
O menino baixava a cabeça e fazia uma cara capaz de suscitar consternação no mais duro dos corações. Era de dar dó até nos piores carrascos. Xôxa titubeava, começava a chorar e abraçava a criança pensando:
- Meu “bichinho” já sofreu tanto coitado. Menino homem é assim mesmo. Não vou judiar ainda mais da criança.
Cada fugida que Guiguiu dava era acompanhada de uma nova cena quando chegava em casa. Convencia a avó de tal forma através de suas caras, bocas e olhares, que causaria espanto e admiração nos pós-graduados em artes cênicas. Era um talento a ser estudado.
Criança cresce. Vira rapaz e depois homem. Aos treze anos, Guiguiu conhecia cada centímetro da cidade de Salvador. Não tinha limites. A rua era para ele o que a selva era para Tarzan. A avó, na medida do possível, tentava agradar o garoto pra que este não fosse seduzido pelos “apelos do mundo”. Tarde demais. Fazia tempo que Guiguiu não era mais menino. Andava com gente sabida e sabido também ficou. Quem quisesse que prendesse suas “cabritas”, do contrário corria o risco de ver suas filhas perderem a inocência nas mãos desse perigoso e impiedoso lobo. Até as meninas maiores não resistiam e se entregavam às suas peripécias. Como dizem os mais velhos: “ o tal do Guiguiu era muito adiantado”.
Já rapazinho e conhecedor dos prazeres da vida decidiu se entregar ao mundo. Este último, por sua vez, o recebeu de braços abertos. Só gostava de roupa e tênis de marca. Mas cadê dinheiro? Não tinha. Um real ou dois Dona Xôxa até conseguia para o menino jogar fliperama. Cem, cento e cinqüenta para comprar uma bermuda da moda? Fora de cogitação, por mais amor e boa vontade que a avó tivesse. Guiguiu queria satisfazer “suas necessidades”. Não pensou duas vezes e procurou uns “conhecidos” que sabiam “se virar” nas situações mais adversas possíveis.
O garoto saiu do encontro com a solução dos seus problemas nas mãos. Ou melhor, na cintura. Porém, nada no mundo real é de graça. Teria que cometer alguns assaltos para pagar pelo “pau-de-fogo”. Mercadinho, farmácia, lotérica, armarinho, padaria... Foi uma verdadeira bagaceira. Em um só dia, o menino fez tanto estrago que a polícia pensou que se tratava de uma quadrilha especializada nessa modalidade de crime. O dinheiro que arrecadou dava para comprar uns dois fuzis. À noite foi pagar a sua dívida.
- Já? Disse, surpreso, um dos “amigos” de Guiguiu.
O garoto não falou nada. Deu o dinheiro e foi embora. Já se sentia o verdadeiro “miseravão”.
No dia seguinte foi ao shopping gastar a grana. O dono da loja já sabia o perfil dos seus clientes. Tem uma marca específica de bermudas e óculos que os caras “bicho solto” gostam. Nem pediu identidade ou endereço na hora do pagamento. Gostava de vender para esses meninos, pois não pediam nota fiscal. Sendo assim sobrava um troco a mais em caixa no final do mês.
Quando voltou para casa, Dona Xôxa falou para ele que dois colegas tiveram lá procurando-o. Guiguiu já sabia de que se tratava. Foi lá na bocada ter com os “parceiros”.
- Qual foi a de mesmo de você irem lá em casa? – perguntou Guiguiu.
- Pivete, vou falar logo o “português correto” pra você entender direitinho.Ce tem talento pra coisa rapaz! Você agora vai ter que trabalhar pra gente. A idéia é essa!
- E se eu não quiser?
- Não tem negócio de não quiser não! Se não quiser, vai “rodar”!
Guiuguiu não gostou muito dessa idéia de roubar para ele e para os outros também. Mas aceitou enquanto pensava no que ia fazer com os seus “sócios”.
Não durou uma semana a sociedade. Os negócios iam bem. Teve um assalto dele que passou até na televisão. O problema é que ele não estava nada satisfeito com a sociedade. Marcou uma reunião supostamente para entregar um dinheiro e matou todos dois através da famosa “covardia”.
Sua fama aumentou. Agora, além de ladrão era assassino. Tomou gosto pelo gatilho. Quem não o respeitava, o temia. As menininhas sentiram ainda mais tesão em ser mulher de ladrão. Mas não era qualquer ladrãozinho fuleiro não. Era marginal perigoso igual a Lampião.
Dona Xôxa não queria acreditar que seu netinho era aquilo que as pessoas comentavam. Como mulher traída, secretamente sabia, mas não queria ver. Não teve jeito. Um certo dia entrou um homem em sua porta. A luz do fim da tarde já débil, bem como as suas vistas castigadas pelo tempo a impediram de identificar o estranho:
- Quem está aí?
- Sou eu Minha Vó!
Só naquele dia se deu conta de que Guiguiu crescera. Tinha barba e voz grossa. A expressão descarada de fujão não existia mais. Seu olhar era grave e decidido. Dona Xôxa sentiu que seria abandonada brevemente. As asas do menino cresceram demais. Lembrou da mãe dele. Conhecia muito bem aquele momento decisivo. Não chorou na frente dele. Na porta, já se despedindo, disse somente:
- Deus te abençoe e te guarde.
Guiguiu foi embora em silêncio. Não precisam de palavras. Haviam dito tudo um para o outro.
No intervalo entre duas novelas, uma semana depois, no jornal das sete horas, Dona Xôxa ouviu a noticia mais triste de sua vida, porém já esperada. A repórter anunciou o fato com a mesma naturalidade de todos os dias. Era uma notícia comum, mas toda vez que era dada trazia uma dor particular para uma mãe, uma avó, uma mulher ou um irmão:
“- Um assaltante morreu hoje à tarde em troca de tiros com à polícia. Gustavo Santos da Silva (aparece a foto da identidade no vídeo) foi surpreendido por uma guarnição da polícia militar quando se preparava para assaltar uma farmácia no bairro da Pituba. Os policiais foram recebidos à bala e revidou. O assaltante foi alvejado com dois tiros e morreu no local”.
Não foi a primeira e nem a última vez que vamos ouvir essa notícia. É lugar comum. Um ciclo que se repete. Provavelmente muitos outros meninos do Monte Azul atuarão no mesmo papel que Guiguiu. Se você, leitor, chegou até aqui é porque a história foi contada desde o início. Normalmente a maioria das pessoas só têm acesso ao ponto final que é narrado todos os dias no jornal das sete.