Trabalho próximo a um cemitério. Não coincidentemente há várias funerárias próximas dele. Deve ser por causa da antiga lei da oferta e da procura. Se eu quero um recipiente para colocar alguém que está morto penso logo em um lugar perto do cemitério. Mas não é sobre isso que quero falar.
Antigamente eu evitava olhar para dentro das funerárias. Tinha um certo medo de imaginar algum ente querido dentro daquelas caixas horripilantes. Não sei por quê esse temor. É uma possibilidade. O pior é que é uma possibilidade que, inexoravelmente, se realizará. Hoje não tenho tanto medo. Me convenço de que não sentirei nada quando minha alma não habitar mais esse corpo. Só me dá um pouco de agonia pensar que ela pode demorar muito de sair. Nesse caso sentirei os primeiros vermes comendo a minha carne. E o pior de tudo, temo estar consciente naquele lugar escuro e apertado que deve ser um caixão. E se me der uma coceirinha embaixo do braço enquanto um bichinho, daqueles que eu tenho tanto nojo quando vejo no lixo, estiver penetrando o meu corpo com a sua boca quase invisível? Será um desespero só. Ainda bem que esta última hipótese é uma possibilidade remota.
Também penso na Morte. Não no ato de morrer, mas na entidade. Um leito de hospital ou chão de uma estrada. Eu lá deitado sentido as forças se esvaírem enquanto avisto um ser com aquele tradicional manto preto com capuz segurando uma foice. Na verdade acho essa imagem da morte meio cafona. Uma entidade tão peculiar deveria estar com um figurino mais sofisticado. Acho aquela foice o “Ó do Borogodó”, como costuma dizer um amigo meu. Independentemente da roupa, o fato é que é uma visita muito inconveniente que traz uma intimação nefasta: “ Acabou o seu tempo. Vim te buscar”. Ao receber essa mensagem talvez me fizesse de desentendido:
-Não lhe conheço.”
- Mas sabe quem sou. Vamos!
Não há outra saída. Só resta lamentar aquilo que se deixou de fazer. O tempo é tão caro quando é curto. Mas quando sabemos que o temos de sobra normalmente não damos muita bola para ele. A resposta dele é o silêncio. Mudo, parece dizer: “Me aguarde”. Tão banalizado. Tão mal aproveitado. Será que é preciso a morte se anunciar para lembrarmos dele?
Meu primeiro encontro com a morte se deu aos onze anos. Até ali nunca havia pensado mais seriamente nela. Eu estudava na Escola Alegria do Povo, em Barra de Caravelas, no extremo sul da Bahia. Ao lado da escola ficavam a igreja e o cemitério. Ambos bem pequenos. Existia uma estranha diversão entre os garotos da minha idade no local. Subiam no muro para ver “Arroz Doce”, o coveiro do povoado, fazer o seu desditoso ofício. Até aquele dia eu não sabia que a mesma cova era reutilizada várias vezes. Quando fui convidado a assistir clandestinamente o sinistro acontecimento pensei que ia ver um homem retirando areia de um buraco. Tive um choque imenso quando apareceram os primeiros ossos. Era um fêmur. Estava enegrecido. Arroz Doce não se incomodou. Pegou uma picareta e puxou com uma espantosa naturalidade. Parecia até que ia plantar alguma coisa naquele solo. A pior parte ainda estava por vir. O crânio foi o que mais me impressionou. Entendi porque a caveira é o símbolo da morte. Tentei imaginar um rosto naquele lugar. Me vi. Vi o que restará de mim um dia. Vi o destino que o tempo me reserva. Aliás, reserva a todo nós. Ao bom e ao mau. Ao humilde e ao vaidoso. Ao rei e ao súdito. Aí está uma coisa que sobre a qual se pode afirmar sem receio: a morte é para todos, portanto, é democrática.
Passei o resto do dia e mais alguns subseqüentes com a imagem daquela caveira me assombrando. Quando eu pensava que já tinha esquecido, ela fazia questão de reaparecer justamente na hora em que eu ia dormir.
Quando cheguei em casa, brinquei com meu irmão como se fosse a última vez. Nem fiquei chateado quando minha madrasta reclamou pela centésima vez por eu ter deixado meu tênis no meio da sala. Também dei um abraço bem apertado em meu pai quando ele chegou do trabalho. Naquele dia me dei conta de que essa pequenas coisas precisam ser aproveitadas. Vai chegar um tempo em que não poderemos mais repeti-las.
Por enquanto não quero pensar muito em minha morte. Inevitavelmente o faço as vezes, quando essas incômodas funerárias atravessam o meu caminho. Ou melhor, elas estão no mesmo lugar. Eu é que passo na frente delas.
Aprendi que não se deve temer o inevitável. O tempo que nos arrasta certamente desembocará nesse mar de mistério. Então só me resta aproveitar a viagem. Não sei se na próxima curva do rio a foz estará me esperando.
Rafael Dias.
segunda-feira, 9 de junho de 2008
Amor e paixão, parceiros ou inimigos?
Falar de amor e paixão é uma tarefa um tanto arriscada. Porque essa tentativa vem acompanhada de uma possibilidade de êxito e fracasso em proporções inversamente opostas. Creio que o silêncio é preferível quando não se conhece os meandros pertinentes a um tema tão importante, que por muitas vezes se apresenta inefável, arredio ao intento dos incautos desbravadores.
Para o escritor é oportunidade de ser imortal, porquanto será lembrado por gerações infindáveis, como conseguiu Platão em “O Banquete” ou William Shakespeare em “Romeu e Julieta”. O contrário talvez seja o mais provável para a maioria dos mortais que se enveredam nesse terreno. Tenho lido tanta coisa sofrível e sem sentido. Também escuto muitas músicas com letras tão mal formuladas que não é possível sequer reconhecer o próprio tema que o autor alega tratar.
Esclarecidos no preâmbulo as condições e limitações do meu intento, lanço-me então à arriscada missão ou seja, responder a duas questões: o quê é o amor? O quê é a paixão?
Quem pensou que eu iria responder tais perguntas enganou-se redondamente, se é verdade que o engano seja redondo. O conhecedor de mistérios tão profundos certamente seria dos mais felizes mortais. Entretanto, para termos um ponto seguro de partida, precisaríamos definir de antemão o conceito de paixão e de amor. Infelizmente não conheci até hoje poeta ou prosador que conseguisse realizar esse feito. Tentarei somente, tomando como parâmetro a experiência pessoal (que por sinal foi parca. Portanto ousada se afigura a empreitada).
Começaremos pela paixão. É difícil encontrar uma pessoa que nunca se apaixonou. A paixão é passageira. Dura enquanto a chama é alimentada pelo desejo. Assim que este se esvai a paixão fica seriamente ameaçada. Muitas vezes ela própria abandona o apaixonado. É como se fosse a cura de para uma doença. Num momento a dor é intensa e pensamos que a tormenta nunca vai acabar. Passa o tempo e ficam só as cicatrizes. Já não sentimos mais nada. Só a lembrança, quando olhamos aquele sinal impresso no corpo.
A paixão é soberba e egoísta. Quer possuir o outro. Quer ter o outro sob seu domínio. Não admite concessões. Quando o faz , o ciúme, um dos efeitos colaterais mais severos da paixão, emerge altivo e intolerante do mais recôndito lugar do espírito. Então estimula o apaixonado aos atos mais delirantes e insensatos. A paixão persegue implacavelmente a razão. Assalta-a e a aprisiona num deserto inóspito. Lança fora a chave da cela e tenta esquecer a localização onde deixou companhia tão incômoda. A razão normalmente é inconveniente para o apaixonado. Faz questão de alertar-lhe a todo momento do risco e conseqüências de suas resoluções. Quem está apaixonado não quer ouvir nem entender nada. No início, há até alguma resistência. Mas depois não há como resistir. Estar apaixonado é como estar numa carruagem puxada por mil cavalos enlouquecidos. Não sabem ao certo o que o destino lhes reservam. Apenas sentem uma vontade incontrolada de correr, correr, correr... Os braços não sustentam as rédeas por muito tempo. O cocheiro se entrega e seja o que Deus quiser...!
O amor, pelo contrário é soberano. Não deseja pagamento. Não deseja possuir. Sente-se até mais feliz em dar, pois é completo. O amor não tem medo nem ciúmes. O amor entende. É maduro e sábio. É também discreto. Diferente da paixão, que é escandalosa, o amor é percebido nos pequenos detalhes. O amor não faz propaganda dos seus feitos. Sente para si, e sentindo, se preenche. O amor não usa maquiagem e nem roupas caras. É bonito em sua simplicidade. O amor não seduz. Atrai involuntariamente, assim como todas as outras coisas boas. O amor é amigo da razão, apesar de não depender dela para andar com as próprias pernas.
A vocês, que valentemente conseguiram chegar até este ponto do texto, tenho um má notícia para dar. Minha intenção não era querer definir o amor ou a paixão. Na verdade tenho pouca competência para tal ofício. Além mais é impossível traduzir o inefável. Tão difícil quanto é traduzir os nosso sentimentos. Eu só decidi escrever este texto porque eu sei que uma pessoa muito especial irá lê-lo. Esta mensagem é para você, MEU AMOR:
- JOICE, EU TE AMO!
Rafael Dias.
* Se vocês quiserem ler mais textos meus, é só acessar o meu blogger: www.amigodesophia.blogspot.com
Para o escritor é oportunidade de ser imortal, porquanto será lembrado por gerações infindáveis, como conseguiu Platão em “O Banquete” ou William Shakespeare em “Romeu e Julieta”. O contrário talvez seja o mais provável para a maioria dos mortais que se enveredam nesse terreno. Tenho lido tanta coisa sofrível e sem sentido. Também escuto muitas músicas com letras tão mal formuladas que não é possível sequer reconhecer o próprio tema que o autor alega tratar.
Esclarecidos no preâmbulo as condições e limitações do meu intento, lanço-me então à arriscada missão ou seja, responder a duas questões: o quê é o amor? O quê é a paixão?
Quem pensou que eu iria responder tais perguntas enganou-se redondamente, se é verdade que o engano seja redondo. O conhecedor de mistérios tão profundos certamente seria dos mais felizes mortais. Entretanto, para termos um ponto seguro de partida, precisaríamos definir de antemão o conceito de paixão e de amor. Infelizmente não conheci até hoje poeta ou prosador que conseguisse realizar esse feito. Tentarei somente, tomando como parâmetro a experiência pessoal (que por sinal foi parca. Portanto ousada se afigura a empreitada).
Começaremos pela paixão. É difícil encontrar uma pessoa que nunca se apaixonou. A paixão é passageira. Dura enquanto a chama é alimentada pelo desejo. Assim que este se esvai a paixão fica seriamente ameaçada. Muitas vezes ela própria abandona o apaixonado. É como se fosse a cura de para uma doença. Num momento a dor é intensa e pensamos que a tormenta nunca vai acabar. Passa o tempo e ficam só as cicatrizes. Já não sentimos mais nada. Só a lembrança, quando olhamos aquele sinal impresso no corpo.
A paixão é soberba e egoísta. Quer possuir o outro. Quer ter o outro sob seu domínio. Não admite concessões. Quando o faz , o ciúme, um dos efeitos colaterais mais severos da paixão, emerge altivo e intolerante do mais recôndito lugar do espírito. Então estimula o apaixonado aos atos mais delirantes e insensatos. A paixão persegue implacavelmente a razão. Assalta-a e a aprisiona num deserto inóspito. Lança fora a chave da cela e tenta esquecer a localização onde deixou companhia tão incômoda. A razão normalmente é inconveniente para o apaixonado. Faz questão de alertar-lhe a todo momento do risco e conseqüências de suas resoluções. Quem está apaixonado não quer ouvir nem entender nada. No início, há até alguma resistência. Mas depois não há como resistir. Estar apaixonado é como estar numa carruagem puxada por mil cavalos enlouquecidos. Não sabem ao certo o que o destino lhes reservam. Apenas sentem uma vontade incontrolada de correr, correr, correr... Os braços não sustentam as rédeas por muito tempo. O cocheiro se entrega e seja o que Deus quiser...!
O amor, pelo contrário é soberano. Não deseja pagamento. Não deseja possuir. Sente-se até mais feliz em dar, pois é completo. O amor não tem medo nem ciúmes. O amor entende. É maduro e sábio. É também discreto. Diferente da paixão, que é escandalosa, o amor é percebido nos pequenos detalhes. O amor não faz propaganda dos seus feitos. Sente para si, e sentindo, se preenche. O amor não usa maquiagem e nem roupas caras. É bonito em sua simplicidade. O amor não seduz. Atrai involuntariamente, assim como todas as outras coisas boas. O amor é amigo da razão, apesar de não depender dela para andar com as próprias pernas.
A vocês, que valentemente conseguiram chegar até este ponto do texto, tenho um má notícia para dar. Minha intenção não era querer definir o amor ou a paixão. Na verdade tenho pouca competência para tal ofício. Além mais é impossível traduzir o inefável. Tão difícil quanto é traduzir os nosso sentimentos. Eu só decidi escrever este texto porque eu sei que uma pessoa muito especial irá lê-lo. Esta mensagem é para você, MEU AMOR:
- JOICE, EU TE AMO!
Rafael Dias.
* Se vocês quiserem ler mais textos meus, é só acessar o meu blogger: www.amigodesophia.blogspot.com
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