quinta-feira, 10 de abril de 2008

A Busca

A busca parece ser, antes de uma ação, um sentimento humano. A inquietação, a pergunta que não quer calar, a discrepância entre o que ouvimos e o que vemos, são os principais móveis para a procura constante de uma resposta . Evidentemente este mal (ou bem, a depender do ponto de vista e do indivíduo) não se estende a todos. A maioria dos homens parecem satisfeitos com as explicações que receberam desde a infância. A busca, essa necessidade de saber mais sobre os rumos do nosso destino, são reservados àqueles que desejam sinceramente exercer a sua humanidade[1]. Os que não necessitam buscar, já estão satisfeitos com as explicações oferecidas pelos noticiários, pelas igrejas, professores, livros de auto-ajuda, etc.
Aqui, refiro-me à busca genuína, aquela que nos incomoda quando estamos sozinhos, nos colocam diante de dilemas toda vez que um novo caminho se apresenta. Normalmente é sugerida pelo espírito que deseja um remédio, um calmante para ficar dentro de nós quietinho e deixar de nos incomodar não definitiva, mas apenas temporariamente.
Não posso dizer que pelo menos uma vez na vida nos questionamos a respeito do real motivo de se estar aqui neste mundo. Efetivamente há pessoas que jamais se interrogarão a esse respeito. Isso não quer dizer que se trata de seres inferiores na escala da existência. Definitivamente, não. A necessidade de abrandar a turbulência que agita o espírito é o que conduz o homem na direção da busca. Quando se está acomodado confortavelmente neste mundo, a última coisa que desejamos é sair deste lugar e se expor aos perigos da inquietação, correndo o risco de perder o seu refúgio e ficar vagando sem paradeiro certo, sem pátria e sem exílio. Se já decidimos o caminho a ser percorrido e estamos certos de que esta é a única estrada possível, só nos resta a resignação e tentar aproveitar a viagem comodamente. Por outro lado, se inúmeras possibilidades são apresentadas, a escolha é muito dolorida. Optar por um dos caminhos é negar e deixar para trás todos os outros. É abandonar todas as outras formas possíveis de viver.
Vez ou outra, aparece um filósofo, um profeta, um pastor ou cantor de banda de rock que diz algo diferente sobre a forma de se viver. Decerto, é sempre bom ter alternativas quando temos que fazer escolhas. O problema é que algumas pessoas, irrefletidamente, vão muito mais além do que isso. Aderem esses pontos de vista como única realidade possível. A opinião passa a ter o mesmo valor que a verdade. Blindada por todos os lados, transforma-se em seitas, partidos, sociedades, etc. Os indivíduos absorvidos por esta “verdade” são capazes de sacrificar até a própria vida em nome da “causa”. Tentam desesperadamente convencer outros a aceitarem a mesma idéia. Dessa forma validam a ação, na medida em sentem-se seguros “todo mundo” acredita na mesma coisa que ele.
Como diz um antigo adágio, “em terra de cego, quem tem um olho é rei”. Pois bem, não se quer dizer que o pastor, o filósofo, o profeta, o cantor de rock, ou qualquer outro que apresente uma ideologia como orientação para a ação, estejam maldosamente intencionado a conduzir as pessoas que fazem parte de sua audiência ao caminho do engodo. A crítica reside somente na postura de aceitar a unilateralidade como via para julgar a realidade. Não há equívoco em se escolher uma ideologia para viver. O problema é que muitas pessoas não investigam o caminho proposto antes de percorrê-lo. É como receber uma encomenda sem olhar o que tem dentro e acreditar piamente que conteúdo declarado está dentro da caixa certamente. É justamente nesse ponto frágil que agem os aproveitadores, aqueles que “possuem um olho só” em meio aos cegos. Se sabem de antemão que o outro não costuma olhar o que tem dentro pacote, o que os impediria de oferecer um pacote vazio ou com conteúdo diferente ao receptor negligente? Absolutamente nada a não ser os valores que cultiva. Como bem sabemos, nem sempre os valores éticos são observados quando se deseja chegar a um objetivo. “Os fins justificam os meios”, mesmo que os meios sejam injustificados. Mas o que se quer dizer em verdade? É que desejo de acreditar em vez do desejo de buscar pode custar a liberdade. Muitos caem nas presas de toda sorte de demagogos e espertalhões exatamente por esse motivo. O caminho mais fácil, ou o mais confortável, pode nos conduzir a um lugar que não gostaríamos de estar ou então pior do que aquele em que estamos agora.
Para onde ir então? Não se sabe. Está em aberto. É o preço a ser pago por escolher a busca, lugar onde moram a angústia e a incerteza. É semelhante a viver em um deserto, em uma floresta ou nas ruas. No entanto parece ainda ser uma via melhor do que optar pela prisão onde tudo é explicado, porém sem nenhuma garantia final.

Rafael Dias.
[1] Humanidade aqui não quer dizer simplesmente ser homem. Representa algo mais, que vai na direção de um desejo de querer se realizar, querer ser pleno, ir além do sentido aparente que é oferecido sob as mais variadas formas de ideologias (N. do autor).

rapheldiaz_1@yahoo.com.br

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