terça-feira, 28 de setembro de 2010

Tirirca deputado

Nos últimos dias venho acompanhando várias notícias na internet sobre o palhaço Tiririca, aquele que ficou conhecido cantando a música “Florentina”. Ele agora é candidato a deputado federal pelo estado de São Paulo. O cara é realmente um figura, pois é um dos poucos que assumem que a democracia brasileira se tornou uma piada através do seu slogan “ Vote em Tiririca, pior do que tá, não fica”.
Esse evento, a candidatura, não deixa de ser engraçado e sintomático ao mesmo tempo, pois já está enraizada no imaginário de boa parte dos cidadãos do nosso país a idéia de que política deixou de ser coisa séria há muito tempo. Faltava somente algum político assumir isso com todas as letras. Parece que não falta mais. Os congressistas provavelmente terão entre seus pares um deputado que é uma comédia.
Até aí, menos mal, pois, se tratando do cenário político brasileiro, podemos esperar com sentimento de normalidade que as situações mais esdrúxulas aconteçam. O que está me causando estranhamento de verdade é o incômodo que a candidatura de Francisco Everardo Oliveira Silva vem causando, tanto a outros políticos quanto a algumas instituições. Vozes indignadas levantam-se pedindo respeito, ética e moralidade no trato da coisa pública. Dizem que o pobre Tiririca não é um candidato sério( e parece não ser mesmo, pois só o vejo dando risada). Recorrem a todo momento à palavra democracia, tão gasta na boca dos políticos para justificar todo tipo de coisa, para desqualificar o palhaço candidato. Mas, não seria um pressuposto da própria democracia a possibilidade de qualquer cidadão chegar ao poder? Tanto o é que, mandato após mandato, elegem-se indivíduos com a ficha corrida que os fariam ter dificuldade de encontrar emprego como varredores de rua, quando tivessem os seus currículos e a vida pregressa avaliados. Mesmo assim a nossa justiça e os nossos políticos não protestam e nem alegam desrespeito à nossa democracia ou à dignidade da coisa pública.
É sabido também que o poder não é um instrumento dos ingênuos e nem dos homens que simplesmente tem sede e fome de justiça. O poder é o meio pelo qual os fortes viabilizam os seus interesses. Os fins justificam os meios. A vergonha, a moral e a ética nem sempre andam de mãos dadas com a política. No Brasil, o poder político é conquistado através do voto. Um exemplo cabal desse tipo de poder é o fenômeno Lula, que se tornou praticamente um mito, porquê até os adversários evitam atacá-lo e posam ao lado da imagem dele nos programas eleitorais de oposição. Algumas pesquisas de opinião de intenções de voto do estado de São Paulo prevêem uma vitória de Tiririca com aproximadamente um milhão de votos. Uma questão que cabe neste caso é a seguinte: quem são os eleitores de Tirirca senão a população mais humilde e com o senso crítico menos desenvolvido? Agora ficou mais fácil de entender. Imagine você, um medalhão, desses que ainda acreditam na existência, de fato, dos currais eleitorais. Desses que gastam uma fortuna em propaganda na certeza de conquistar o coração das massas que não avaliam com muito critério em quem vão votar. De repente, vem um Tirirca da vida fazendo chacota de si mesmo e do cargo de deputado, e, brincado morde a espantosa cifra de um milhão de votos, mostrando que o “curral eleitoral” não estava tão fechado quanto parecia. Qual a solução? Ministério Público nele.
Já fizeram gato e sapato de Tirirca. Acusaram-no de analfabeto. Mas pra quê deputado precisa saber ler, se faltam a boa parte das sessões e votam matérias sem saber o conteúdo. Sem contar a fortuna que se gasta de verba de gabinetes para contratar assessores. Mas analfabeto vota, será que ele não sabe o que está fazendo, será que estão colocando em perigo o futuro do país? Parece que não, pois o código eleitoral considera isto lega. Disseram agora que o cearense não havia declarado seus bens na ficha cadastral eleitoral. O que dizer então do deputado que tinha um castelo de 25 milhões de reais. Será que é difícil enxergar um imóvel tão modesto?
É Tirirca, parece que não querem que você seja deputado mesmo. Logo agora que eu já estava me divertindo. Sempre soube, ao observar determinadas práticas e algumas personagens, que o congresso era uma piada. A diferença é, desta vez, pelo menos teria graça.

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